25 outubro 2016

10/10/2016 - Brasília

Olá Silvia, chegamos aqui. 

Mais de mil quilomêtros para chegarmos até aqui, você e eu. 
Foi preciso o passar dos anos, quiçá das vidas, outros amores 
para chegarmos até aqui
Você.
Eu. 
Reencontro pouco esperado de (da) gente 
que nada espera. 
Tantos melindres da vida 
histórias familiares, 
Familiares. 
Chá-mate, Itamar Assunção, vermelho 
feminismo, amor livre, maternidade
cachoeira, candomblé, praia
poesia, pânico, sorrisos, Novos Baianos 

O céu de amplidão do Cerrado 
voa pela janela do carro
rápido
as nuvens correm 
as árvores correm
as pessoas em suas bicicletas correm 
eu, imobilizo. 
imobilizo as nuvens, as árvores, as bicicletas. 

A vida em um mundo de impermanências se trata de fazer imobilizar. 
Imobilizar o pulsar do teu peito dodecafônico 
Imobilizar o transbordar, quase transbordar dos teus olhos 
quando menciona teu filho. 
Acompanhar o abaixar do teu olhar, docemente, quando te intimidas 
O encontro de nossas fragilidades brandas,
Dos trechos de Mia Couto
Do passar dos dedos nos livros de um Sebo qualquer, 
de uma rua qualquer, de uma cidade qualquer, 
do café que se coa no guardanapo 
da comida que se divide
do cansaço que se divide
da tristeza que se divide 
e de tudo que se multiplica e que é potência. 

Chegamos aqui. 
E já temos saudade da vida sem tempo. 
Chegamos aqui
E não há nada aqui que não havia antes ou depois 
Exceto pelos pássaros mais cantarolantes 
do ganho de peso
das marcas de expressão
da quantidade de livros que atravessam nossas conversas 
ou ainda, 
das quantas pessoas que ocupam nossos corpos enquanto nossos corpos se fundem 
e se encontram nas brechas, 
nas rachaduras, nas erupções subterrâneas que se escondem, 
sub-repticiamente, 
sob a pele. 
E é de lá que toda luz movimenta sua dança 
Imobiliza seus cálculos e nos traz até aqui. 


Silvia, chegamos aqui. 

ROMANI CALÓN 

04 outubro 2016

O desejo do analista

Para Lacan, a direção de uma análise se orienta pelo que ele chamou de "desejo do analista”, que se define como um operador clínico que coincide com o desejo de pura diferença. O desejo que na análise o Sujeito produza sua mais absoluta diferença e que por meio dela construa o resgate da alteridade, que se confere pela condição de poder estar só, poder desejar, poder demandar, demandar laços que contemplem a pura diferença como inspiração para uma forma inédita de amar. (Seminário - O trauma na cultura da indiferença - profa. Miriam Debieux)

https://www.youtube.com/watch?v=htHFLUxCvSg