09 setembro 2016

Homem Comum - Ferreira Gullar

Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento.
Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar.

Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons,
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei
bocas bandeiras bananeiras
tudo
misturado
essa lenha perfumada
que se acende
e me faz caminhar
Sou um homem comum
brasileiro, maior, casado, reservista,
e não vejo na vida, amigo,
nenhum sentido, senão
lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
Quero, por isso, falar com você,
de homem para homem,
apoiar-me em você
oferecer-lhe o meu braço
que o tempo é pouco
e o latifúndio está aí, matando.

Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
Homem comum, igual
a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
A sombra do latifúndio
mancha a paisagem,
turva as águas do mar
e a infância nos volta
à boca, amarga,
suja de lama e de fome.
Mas somos muitos milhões de homens
comuns
e podemos formar uma muralha
com nossos corpos de sonho e margaridas.


© FERREIRA GULLAR
In Toda poesia, 1980

08 setembro 2016

27 de Agosto

Sua boca colada na minha, acordada, dormindo, pronta pra dormir. Sua respiração. Seus olhos verdes (que eu persigo), seu corpo andando, parado. Seu silêncio. Suas palavras sorridentes. Seu olhar tristonho. Suas músicas, suas danças, você dançando. Você feliz. Sua boca. Sua bunda. Suas costas. Sua beleza que não é só beleza. É beleza que dá vontade de ver transformar com os anos. Sua voz. As modulações da sua voz. Seu tênis vermelho. Você dormindo quentinha. Acordando amassada. Sua beleza até quando não é beleza, mas que é bela. Meus olhos que querem te seguir. De perto. De longe. O sorriso. As lágrimas. As frustrações. Na alegria. No silêncio. No mar verde-mar que é convite. Um convite irrecusável. Um convite para o mar. Um convite para um corpo nu que nada. Um corpo sem nada. Sem amarras, sem roupas, despossuído das mesquinharias banais. Tomado pela banalidade feliz. Suas rugas, cada marca da sua expressão, cada manchinha do seu rosto, que é seu e é perfeito. Porque é seu. Porque é quem você é. E o que você é... É grande. E é perfeito. Porque não haveria outra forma de sê-lo, você está lançado no mundo que simplesmente é. Indiferentemente, é. E eu vi e vejo agora. Neste momento. Aos 33, aos 40. Porque o mundo simplesmente é. Por que agora. Porque o mundo simplesmente é. Para que eu pudesse ver os olhos-verdes-marejados e cada tom da sua pele. Cada vinco. Cada fio. E tudo é perfeito. Em um mundo que simplesmente é.
O mundo esta desabando, amor.
E amar é um ato revolucionário.
MASNAVI