27 janeiro 2016

A Vida Secreta dos Objetos

"'A vida é um nascimento contínuo'. (...) Elaborando: a vida não se trata de uma emanação, mas de uma geração de ser, em um mundo que não é preordenado, mas incipiente, sempre à beira do atual. Estamos continuamente presentes como testemunhas desse momento, sempre em movimento, como a crista de uma onda, no qual o mundo está prestes a revelar-se pelo que ele é." Ingold. Estar Vivo.

Podia ser apenas mais um objeto no banheiro como tantos outros que são necessários à higiene do cotidiano, se não fosse pelo encontro das escovas de dentes. Sempre elas. Encarando-se no fundo de um copo sujo. Permanecendo vivas como um resto de plástico que leva anos para degenerar. Cores múltiplas escolhidas afetuosamente de acordo com o humor, personalidade intermitente. Roxo. Energia vital. Achei que combinava com a vitalidade da alma de um corpo acorcundado. O olhar que olha para baixo. 
Mas seu objeto olha pra frente. Embolorando com as paredes, olha pra frente. 
Quantas vezes ensaiei descartá-lo ao lixo e recuei. Quando ela olha para frente, olha nos meus olhos. Desviando o olhar, peguei-a pela última vez. Reciclagem. 
Que memórias povoariam a vida secreta do objeto? 
Trouxe-a em minha casa para fazer morada segura ao meu amor. Nossa casa, lhe disse. Porta aberta, lhe informei. 
A forma é dura. Objeto plástico. Reciclagem. 

CASTRO