28 janeiro 2016

A pobreza tem cor

A precariedade dos corpos têm cor predominante. Tem gênero majoritário. Tem classe social. 
Quem acorda todos os dias com a alma tranquila, está inconsciente. 
Quem levanta cedo para dar lucro às molas que propulsionam toda esta engrenagem, esta do lado do opressor. 
Cada palavra, cada gesto, cada silenciamento mata. Principalmente o silenciamento, mata. 
E se te parecer uma idéia radical usar a lupa social... 
Tranquilize-se. Nada afetará seus privilégios. A herança (propriedade), a boa formação, a cor da pele, a classe social, a rede de suporte, continuaram garantindo que a lupa social é radical e extremista. 
Então, riem-se das piadas. Apavoram-se com as misturas de classe (chamando-as de "popularização", "povão"). 
Essa idéia radical de incomodar-se todos os dias com as desigualdades sociais é amor. 
E o amor é radical. 
O amor é extremista. 
E cego. 
E justo. 

CASTRO

"Não se deve fazer divisão binária entre o que se diz e o que não se diz; é preciso tentar determinar as diferentes maneiras de não dizer, como são distribuídos os que podem e os que não podem falar, que tipo de discurso é autorizado ou que forma de discrição é exigida a uns e outros. Não existe um só, mas muitos silêncios e são parte integrante das estratégias que apóiam e atravessam os discursos".
[História da sexualidade. v. 1: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1988, p. 30]



Música: "We are the world" na voz de jovens da favela Vila Ipiranga
em Niterói - Rio de Janeiro.


27 janeiro 2016

A Vida Secreta dos Objetos

"'A vida é um nascimento contínuo'. (...) Elaborando: a vida não se trata de uma emanação, mas de uma geração de ser, em um mundo que não é preordenado, mas incipiente, sempre à beira do atual. Estamos continuamente presentes como testemunhas desse momento, sempre em movimento, como a crista de uma onda, no qual o mundo está prestes a revelar-se pelo que ele é." Ingold. Estar Vivo.

Podia ser apenas mais um objeto no banheiro como tantos outros que são necessários à higiene do cotidiano, se não fosse pelo encontro das escovas de dentes. Sempre elas. Encarando-se no fundo de um copo sujo. Permanecendo vivas como um resto de plástico que leva anos para degenerar. Cores múltiplas escolhidas afetuosamente de acordo com o humor, personalidade intermitente. Roxo. Energia vital. Achei que combinava com a vitalidade da alma de um corpo acorcundado. O olhar que olha para baixo. 
Mas seu objeto olha pra frente. Embolorando com as paredes, olha pra frente. 
Quantas vezes ensaiei descartá-lo ao lixo e recuei. Quando ela olha para frente, olha nos meus olhos. Desviando o olhar, peguei-a pela última vez. Reciclagem. 
Que memórias povoariam a vida secreta do objeto? 
Trouxe-a em minha casa para fazer morada segura ao meu amor. Nossa casa, lhe disse. Porta aberta, lhe informei. 
A forma é dura. Objeto plástico. Reciclagem. 

CASTRO


21 janeiro 2016

#34 Poemas de Amor

E haverá sempre o último beijo
A última bala
O último abraço 
A soterrar-se no espaço de tempo 
que nascem as flores 
crescem as árvores 
nascem amores. 

Aqui jaz o “não"

A primeira porta que se abre
A primeira cadeira que se senta
O primeiro doce que se oferece
O primeiro beijo que encosta a parede 
A primeira cama que toca os corpos 
O primeiro olhar, 
Do primeiro amor. 

Aqui jaz o “não”

Castro

19 janeiro 2016

#33 - Poemas de Amor

Caminho por entre arranha-céus como se fossem pequenas pedras 
aos meus pés 
Gosto de olhar a margem que os separa 
E imaginar o que poderia preencher a liquidez de suas bordas 
É um passo solitário e marginal 
Com intervalo para afofar as nuvens e engolir a saliva 
Fazendo nascer abraços de bolinhas de sabão 

O cantar incognoscível do plumado vivo 
Sobrevoa timbres, lúgrube tom de anoitecer 
Entre o vão aguarda o corpo 
Leve encaixe acizentado do concreto 

Silêncio. 

Parvos entoam ladainhas 
Nas esquinas tortas 
Sentados no chão 

Corpomorfose 
Amanhece bicho
Quatro patas, focinho, instinto 
Sobrevive, enfim. 

CASTRO