24 dezembro 2015

Natal

O mundo lá fora é esquisito, amor. 
O lastro tem forma e número, valor. 
Tem corpos magros, negros e pobres 
Sorridentes homens de sorte 

Tem casa bacana, carro do ano 
A roupa certa de se usar, na cartela de cores 
Mas não abuse. É cafona. 

Tem árvore de Natal debaixo do viaduto Alcântara Machado 
Ao lado um colchão, a mulher negra esquelética, a criança brincando no chão. 
Tem pedinte que chora no para-brisas e sai sorrindo em busca do crack. 
Tem esmola. Presentes enviados da culpa cristã. Brinquedos para quem não brinca. 
Bala para quem não escova os dentes. 

O agito das viagens. 
A escolha das melhores drogas para o réveillon
As praias, a compra dos melhores pacotes 
ânsia, pânico, fotografias. 
A pose certa de se fazer, no melhor estilo blasé. 
Mas não abuse. É cafona. 

Tenho mergulhado em mercúrio nanquim 
Me desmanchado como um pote de ouro 

Costuro as sobras do retalho sem fim. 

Castro.