23 dezembro 2015

As palavras e as coisas

Venho te visitar por amor ou por tristeza, você bem sabe. 
Uma sala vazia, um silêncio cortante, nada de barulho de garfos ou de televisão. 
Eu te encaro por horas antes de dizer qualquer coisa. É palpitante te ver de branco. 
Hoje tem chuva na mata. Seremos mais feliz assim, correndo. E você sabe reconhecer uma visita triste. Vai logo abrindo as portas, apressada. Não tenho pressa. Nem precisão. 
Tenho tanto medo, mas isso você também sabe. Não me recusa nunca. Sempre me deu a mão. 
Sabe, caminhando na rua sozinha escrevi uma narrativa sensível de tudo que via. Pensei em gravar, mas dai veio a bomba. Correria. Gritos de ordem. A moça torneada tocando um bumbo, camiseta vermelha, socialista. 
Cada eco do bumbo, um grito. 
A poesia pianissima, entra em adágio. 
Mas… Venho te visitar por amor ou por tristeza, você bem sabe. Tenho passagens de Miller na mente. Queria poder revisita-las, mas não posso. Atordoam meu espírito. 
Queria a mansidão de outrora. 
O corpo quentinho que cobre as costas, o respiro na orelha. 
“Eu te protejo, você me protege”. 

Pra sempre. 

Castro.