24 dezembro 2015

Natal

O mundo lá fora é esquisito, amor. 
O lastro tem forma e número, valor. 
Tem corpos magros, negros e pobres 
Sorridentes homens de sorte 

Tem casa bacana, carro do ano 
A roupa certa de se usar, na cartela de cores 
Mas não abuse. É cafona. 

Tem árvore de Natal debaixo do viaduto Alcântara Machado 
Ao lado um colchão, a mulher negra esquelética, a criança brincando no chão. 
Tem pedinte que chora no para-brisas e sai sorrindo em busca do crack. 
Tem esmola. Presentes enviados da culpa cristã. Brinquedos para quem não brinca. 
Bala para quem não escova os dentes. 

O agito das viagens. 
A escolha das melhores drogas para o réveillon
As praias, a compra dos melhores pacotes 
ânsia, pânico, fotografias. 
A pose certa de se fazer, no melhor estilo blasé. 
Mas não abuse. É cafona. 

Tenho mergulhado em mercúrio nanquim 
Me desmanchado como um pote de ouro 

Costuro as sobras do retalho sem fim. 

Castro.

23 dezembro 2015

Miragem

Pensei ter visto um rio. 
Um deleite de águas tranquilas, imponente, um fio. 
linhas tênues cheias de conexões com a vida, um rio. 
Turvas ondas delicadas, verde fio. 

Pensei ter visto a lua 
Refletindo no leito vazio, pedaço de chuva
prateada semente bolinha de lua 

Pensei ter visto meu corpo 
Livre coberto de sopro sendo levado à gosto 
Nu suave-potente entregue, verde fio

Pensei que tivesses lido o poema.  


Castro.

Cacofonia

Clarabóia, clara neve, caleidoscópio girador
Para-raio, para a vida, para disco-voador
Ventania, avoado, vá de reto, desamor 
Para breve, pesa preço, peca o tom, pede pausa. 

Balbucia, a palavra bebe, não seja breve no tom de amor 
De onde surgir o sol, solidifique, sorria leve, aqueça o bom 
Para a vida, ventania breve, solidifique, o voador. 

Castro. 

As palavras e as coisas

Venho te visitar por amor ou por tristeza, você bem sabe. 
Uma sala vazia, um silêncio cortante, nada de barulho de garfos ou de televisão. 
Eu te encaro por horas antes de dizer qualquer coisa. É palpitante te ver de branco. 
Hoje tem chuva na mata. Seremos mais feliz assim, correndo. E você sabe reconhecer uma visita triste. Vai logo abrindo as portas, apressada. Não tenho pressa. Nem precisão. 
Tenho tanto medo, mas isso você também sabe. Não me recusa nunca. Sempre me deu a mão. 
Sabe, caminhando na rua sozinha escrevi uma narrativa sensível de tudo que via. Pensei em gravar, mas dai veio a bomba. Correria. Gritos de ordem. A moça torneada tocando um bumbo, camiseta vermelha, socialista. 
Cada eco do bumbo, um grito. 
A poesia pianissima, entra em adágio. 
Mas… Venho te visitar por amor ou por tristeza, você bem sabe. Tenho passagens de Miller na mente. Queria poder revisita-las, mas não posso. Atordoam meu espírito. 
Queria a mansidão de outrora. 
O corpo quentinho que cobre as costas, o respiro na orelha. 
“Eu te protejo, você me protege”. 

Pra sempre. 

Castro.