30 setembro 2015

Escute só. Isso é muito sério.

Ressoa, ao nosso redor, o silêncio fecundo e escuro das raízes , a escuridão de todas as coisas que vivem e crescem e são muitas, constantemente em mudança. Somos na noite como quem hiberna, somos na noite como quem se firma na terra e se alimenta e cresce entre todas as escuridões fecundas, somos na noite como o que se não vê em círculo de coisas que acabam e coisas que começam sempre, incontroláveis. Seremos os dois assim, raízes envoltas em silêncios, quando o mundo morre e explode à nossa volta em cacofonias de vermelhos e amarelos e laranjas finais, dormimos envoltos em vida. E ressurgiremos na luz, frágeis, ternos,finitos, como todas as coisas que nascem e florescem.

Entre o véu dos vivos e dos mortos, de todas as legiões de fantasmas e monstros, a fina, ténue linha do nosso silêncio. Comungamo-nos as longas noites e a escuridão primitiva de todas as coisas secretas que ninguém sabe, todos os gestos inúteis, todas as esperas, comungamo-nos inteiros, entre vivos e mortos e terrores de noites escuras. Devoramo-nos entre a celebração das coisas, vivas, que começam em novos círculos eternos e tudo o que foi antes de nós e é morto e está escondido, mas presente, apesar de tudo, entre as nossas linhas de silêncio.


Nos ligamos ao verde marejado de olhares silenciosos, longas afecções de almas nômades. Somos a nau, velas ao vento, atravessa-nos a luz e as ondas movendo desejos antigos, inomináveis, tirando o mofo e pó, das noites de inverno cheia de solidões e culpas. Nossos corpos são catedrais de silêncio. Remontam a terra. Libertamos as vozes e as luzes. Morremos e nascemos em novos batismos, entre paralisias e lágrimas, gemidos e abraços tão apertados quanto um feixe, um feixe de esperança, de potência de vida, de efetuação. E também somos um rio, desaguamos segredos, encharcamos lençóis, afinamos silêncios, somos a prece, o Deus, o homem, o corpo, a alma, o espírito, somos a vida, as vidas, ontem, hoje, amanhã, todo devir que se efetua agora que estamos livres. 

CASTRO.

11 setembro 2015

Delírio-Deleuziano


Querida,
Nesta noite escura, sob o manto estrelado
Canta e uiva a lua
Nosso corpo misturado 

Religare a-mar-é 
Grandes ondas, baixos rios. 
Corpos brandos, corpos nômades 
Corpos improdutivos da fixação heurística 

organismos vivos 
potências do devir 

Querida,
sexualize-me com o anti-falo interpenetrativo 
goze saliva com o vai e vem da sua língua 
metendo, expelindo a água, o sal e o mar. 

dance lânguidas pernas 
no cruzamento das minhas/tuas coxas 
em minhas pulsões amorfas 
no cio do meu olfato penetrativo 
que encontra suas cavidades engolindo meus dedos 
sôfrega, desejante, 

um corpo sem órgãos 
que produz realidades 
tão incertas, quanto imperfeitas 
tão sinceras, quanto rarefeitas 
Apenas retratos da arte-vida 
do sexo-artístico de materialidades nuas 
você, eu, o espelho. 
atravessando labirintos e criando novos labirintos 
atravessando corpos e criando novos corpos 
esculturas de femininos e masculinos 
invertebrados 
degenerados 

A língua do pau. 
O buraco do dedo.
A riste do cú. 
O movimento. A criação. 


Deusas que somos do nosso desejo sem bordas. 

CASTRO 

"Eu crio um corpo que não perde o devir, um corpo em acontecimento, que é condição de si próprio. Os órgãos se tornam meios de mim mesmo. Abrir as portas do corpo para a vida potente e fechar para as armadilhas” – Luiz Fuganti.