11 julho 2015

#Santuário


Não tive tempo de lhe mostrar Arvo Pärt.
Conheci sua mãe pelo brilho que irradiava dos teus olhos ao falar dela. Se formava uma nascente fluída de águas tranquilas que flutuavam sem bordas para todos os lados da terra. De espessura translúcida, temperatura da calma, um útero. Seu útero. O único lugar que você seria capaz de flutuar sem o próprio peso. Desmanchariam-se os calos de dentro da sua boca. Seus braços se abririam, em formato de cruz, invadido pela luz do sol, essa potência de vida imensa que se convida a cada amanhecer. Seu corpo seria transformado em lágrima, em milhares de gotas derramando-se no útero. Um abraço de vida, de esperança, de ressurreição. Não seria a última vez do nascimento. Não seria a última vez que enfrentaria a morte. 
Neste dia chuvoso, de silêncio espiritual, não morra. 
Somos filhos da Terra. (E da Grande-Mãe, Odôiyá!)
Não tenha medo. 

Deixe-a escutar (sua mãe), ainda que com dificuldades, o som (a música) da expectativa. Da imanência. Da vida. Daquilo que não se dilui com o apagamento da matéria-corpo. Aquilo que esta ali, escondido, silenciado, mas que vive. Vive fora do corpo. Vive nos teus olhos, nas tuas palavras que escapam de alguma doçura (que com tanto esforço é silenciada), da pulsação de um coração batente, uma alma que pede vida sem pedir, um corpo que quer acalento. Deixe-se ir. Não adoeça. 
Há um santuário no amor. 
Não tenha medo. 





Castro