23 junho 2015

El cuerpo utópico. Las heterotopías

Talvez seria preciso dizer também que fazer o amor é sentir seu corpo se fechar sobre si, é finalmente existir fora de toda utopia, com toda a sua densidade, entre as mãos do outro. Sob os dedos do outro que te percorrem, todas as partes invisíveis do teu corpo se põem a existir, contra os lábios do outro os teus se tornam sensíveis, diante de seus olhos semi-abertos teu rosto adquire uma certeza, há um olhar finalmente par ver tuas pálpebras fechadas. Também o amor, assim como o espelho e como a morte, acalma a utopia do teu corpo, a cala, a acalma, a fecha como numa caixa, a fecha e a sela. É por isso que é um parente tão próximo da ilusão do espelho e da ameaça da morte; e se, apesar dessas duas figuras perigosas que o rodeiam, se gosta tanto de fazer o amor é porque, no amor, o corpo está aqui". In: FOUCAULT, Michel. El curpo utópico. Las heterotopías

(http://www.ihu.unisinos.br/noticias/38572-o-corpo-utopico-texto-inedito-de-michel-foucault)

O olho mais azul

"Todos nós- todos os que a conheceram- nos sentíamos tão higiênicos depois de nos limparmos nela. Éramos tão bonitos quando montávamos na sua feiúra. A simplicidade dela nos condecorava, sua culpa nos santificava, sua dor nos fazia reluzir de saúde, seu acanhamento nos fazia pensar que tínhamos senso de humor. Sua dificuldade de expressão nos fazia acreditar que éramos eloqüentes. Sua pobreza nos mantinha generosos. Até seus devaneios usamos- para silenciar nossos próprios pesadelos. Nela, afiamos o nosso ego, com a fragilidade dela reforçamos nosso caráter, e bocejávamos na fantasia de nossa força.
E era fantasia, pois não éramos fortes, apenas agressivos; não éramos livres, meramente autorizados; não éramos compassivos, éramos polidos; não bons, mas bem comportados. Cortejávamos a morte a fim de nos chamarmos de corajosos, e escondíamos da vida como ladrões. Substituíamos intelecto por boa gramática; mudávamos os hábitos para simular maturidade; rearranjávamos mentiras e as chamávamos de verdade".
Toni Morrison, in: O olho mais azul.

11 junho 2015

Tu, que só existe em mim

PRÓLOGO 

Não me manietei. Dei-me totalmente e fui.
Aos deleites, que metade reais,
metade volteantes dentro da minha cabeça estavam,
fui para dentro da noite iluminada.

E bebi dos vinhos fortes, tal
como bebem os denodados do prazer.

(Konstandinos Kavafis - Fui)

EPÍLOGO

De súbito
O ímpeto 
Submete 
(me) à encarar 
(me) te 
a face narcísica  
de nós. 

tu e eu. 
a luz e a sombra 
do espelho. 

O pulsante é desespero
À fronteira, vive o medo 
E…

Quero-te, quero-te 
Perdida em meus delírios pujantes 
Sedenta da carne 
Desejante.
Reduzida a lampejos e instantes 
tão catastróficos quanto infantes 

Não sacia (me)
A avidez discreta

deste mundo 

E não te tomo 
Porque não existes
Fora de mim (de ti) 

E esse é o segredo mais encantador. 

CASTRO 

02 junho 2015

Pobre menina rica

É na sombra da noite que o silêncio do mundo 
Toca seu coração
Palmo a palmo, encosta a cabeça no seu peito
E descansa a solidão 

Na sina da noite as corujas entrecortam com seu olhar gritante o silêncio do mundo, a expor verdades e mentiras ditas e não ditas da vida.
Das águas que bebem, das águas correntes, das águas que choram,
Das Rodas-moinhos, das chuvas que deságuam cheias de dó e
Dos oceanos de estrelas vertentes de amor,
Tidas nos transbordantes peitos e prantos dos poetas, profetas, sábios, loucos e outros.


É na sombra da noite que o mundo te cala
E o vazio do teu coração 
Palmo a palmo, escorre a mão materna 
Trans-formada 
Na sede incessante 
de Trans-ceder. 
Trans-corpos-fragilizados
Que são você. 

Tua alma não repousa. 
Não se acha. 
Trans-mutou. 

Multi-tarefaria-obsessões-em-rede
conectividade-ativista-non stop. 
Se parar 

Percebe que já morreu. 

CASTRO