27 maio 2015

A última dança

Quando a vi pela primeira vez, reconheci em sua coluna vertebral a rigidez simulada de quem ordena os sustentáculos a imprimirem a imagem sinônimo de uma visualidade de ordem, ordenada. Não fosse pela maciez curvilínea do pescoço desenhando sua feminilidade abstrata e humana, não teria visto sua alma engendrada em tamanha altivez. A fala era pausada, fonemas que se apresentavam de par em par, curvando-se e cumprimentando a realeza política de seu discurso. Palavras caiam dos lábios suaves, de forma ordenada, militar. Era possível sentir o compasso de sua respiração. O ir e vir do ar quente e frio. O ir e vir coordenado. 
O som foi ficando intenso, intenso, até que reverberou o silêncio. Deste silêncio (mental) nasceu Eros. A simulação ou o simulacro? A alucinação compartilhada socialmente chamamos realidade. Porém a imagem que vi pela segunda vez, era reprodução técnica de si. A experiência imagética desmaterializada. O que vejo é mediado pelos sentidos e o universo é um universo de representações.  
Quando a vi pela terceira vez, sua nudez real e simbólica parecia frágil. Consumia-me com a avidez de êxtase orgiástico (orgia-consumo-capital) entregue à busca sôfrega por sentido (sentir-se), em seu simulacro de corpo e consciência. A perversão erotizada transformava a experiência corporal em imagem, em um exibicionismo delirante de sua nulidade. Quanto mais visível nos tornávamos, mais amargávamos o sensível da invisibilidade. Zumbis autocomunicantes. 
Quando mergulhei profundamente no real, escolhi a vida. As coisas não se tornaram visíveis a um olho externo, e sim, transparentes em si mesmas. E na quarta vez que te vi, uma imagem como um vórtex por onde traspassa energia, deu sentido à Eros. Nem simulação, nem simulacro. Eros, desdobramento do sentir corpóreo de todos os sentidos, ampliação de consciência. Inteiro porque não se encerra no gozo. No gozo do apagamento do corpo. Na repetição inumerável, na acumulação quantitativa. Na aliteração fuga depressiva (fuga da depressão- do corpo não desejante). Do desamparo profundo dos teus olhos infantis-puro-Eros (o Duplo da tua criança assustada) e da imagem técnica reproduzida pela (sua) retina, simulacro de força e altivez do corpo (Thanatos) que não está. 
Quando tiro sua roupa não é para revelar o nu, nem para desvelar seus segredos. É para fazer aparecer esse corpo como definitivamente enigmático, definitivamente secreto, como objeto puro, cujo segredo não será nunca revelado e não tem de ser. 
CASTRO

22 maio 2015

Dodecafônico

Penso
Em você
às vezes.

Escrevo.
Oras mando, 
Ora esqueço 

Horas
invento. 

H (oras)
Tento 

Inverto 
o intento 
ao tom do vento

Ao som
Do tempo
(teu) tempo

Suspendo
Dependo
Repreendo 

Ora, esqueço. 
(de nós) 

CASTRO