15 abril 2015

Verônica Vive

O que o centro traz
é, evidentemente, 
o que existe no fim e existia no início. 

Goethe, Divã Ocidental 

VERÔNICA VIVE 

Um corpo arrastado, desfigurado, semi-nu, com os seios à mostra. Cortaram seus cabelos para castrar sua força, jogaram-na aos leões para que lhe devorassem e reproduziram a imagem de seus restos ao esvaziamento de sentidos, espetacularização do bode expiatório que carrega em si a Medusa e seus cabelos de serpentes que deve ser sacrificada para não petrificar todos aqueles em quem se fixasse seus olhos. Poucos, ou quase ninguém ficou petrificado. Misoginia, transfobia e racismo não petrificam. Verônica, do latim vera, que significa "verdadeira" e icona, que quer dizer “imagem”, materializa-se na imagem verdadeira de sua própria luta. A luta de todas as mulheres, de todas as Verônicas. A batalha que se combate com sangue, ao dessabor da transfiguração das Marias da Penha, da nudez vexatória do machismo (aquela mesma que também se traja em assédio cotidiano), da injustiça que tem cor e classe social, do ódio e da intolerância. 
Medusa era mortal. Ao ser decapitada por Perseu, foi colocada no escudo da deusa Atena para afugentar o mal. Coloquemos nosso escudo todos os dias para que nunca esqueçamos dessas mulheres, símbolos de nossas lutas. 

Lembremo-nos de Berenice, esposa de Ptolomeu, que ofereceu à Afrodite seus cabelos para ter em seus braços o marido que estava na guerra. Seus cabelos desapareceram do templo e o astrônomo Cónon enuncia que o presente havia se transformado em uma constelação, assim chamada de Cabeleira de Berenice. Verônica é a forma latinizada de Berenice. Verônica esta viva para nos dar esperança para seguir lutando por nossas constelações, por nosso feminino. 

Aline Castro