25 abril 2015

Mil léguas submarinas

Do alto de onde se desprendem as ondas
Descia fluída ao fundo do mar

Vencia a cólera de dias amargos 
Respirava ofegante, 
Longe ao naufrágio 

Meu peito, leve brumado 
Meus olhos vidrados
Meu corpo a nadar. 

Polvo, múltiplos tentáculos, goza
Goza de mim
Interminável onda de fricção 
Lânguidos braços e bocas
Convulsionam à febre 
Salvaguardam a alma 
anestesiam-se recônditos 
a livre prisão. 

Reconheço-te, 
e meu desejo não te olvida,
se te olho nos olhos
vejo urzes brotando 
da mesma emoção. 

Polvo, múltiplos tentáculos, goza
Goza de mim,
Interminável luta poética 
que vê na vida, razão. 

Se desci o oceano-mundo 
Abaixem, tentáculos 
Me dê a mão. 

A. Castro 

21 abril 2015

Indianas

Vou encher meu coração 
com o silêncio fixo da tua força 
estremecendo as cordas que sustentam teu pescoço
ecoando tua voz distante 
aos dizeres que brotam 
à beira do malogro 

nascituros madurados das vicissitudes 
na sombra fazedoura
de tuas saias, 
de tuas flores,
de teus sorrisos 

desabrocham flor-de-lotus Grande Mãe
e vive. 
porque luta. 

A. Castro 

15 abril 2015

Verônica Vive

O que o centro traz
é, evidentemente, 
o que existe no fim e existia no início. 

Goethe, Divã Ocidental 

VERÔNICA VIVE 

Um corpo arrastado, desfigurado, semi-nu, com os seios à mostra. Cortaram seus cabelos para castrar sua força, jogaram-na aos leões para que lhe devorassem e reproduziram a imagem de seus restos ao esvaziamento de sentidos, espetacularização do bode expiatório que carrega em si a Medusa e seus cabelos de serpentes que deve ser sacrificada para não petrificar todos aqueles em quem se fixasse seus olhos. Poucos, ou quase ninguém ficou petrificado. Misoginia, transfobia e racismo não petrificam. Verônica, do latim vera, que significa "verdadeira" e icona, que quer dizer “imagem”, materializa-se na imagem verdadeira de sua própria luta. A luta de todas as mulheres, de todas as Verônicas. A batalha que se combate com sangue, ao dessabor da transfiguração das Marias da Penha, da nudez vexatória do machismo (aquela mesma que também se traja em assédio cotidiano), da injustiça que tem cor e classe social, do ódio e da intolerância. 
Medusa era mortal. Ao ser decapitada por Perseu, foi colocada no escudo da deusa Atena para afugentar o mal. Coloquemos nosso escudo todos os dias para que nunca esqueçamos dessas mulheres, símbolos de nossas lutas. 

Lembremo-nos de Berenice, esposa de Ptolomeu, que ofereceu à Afrodite seus cabelos para ter em seus braços o marido que estava na guerra. Seus cabelos desapareceram do templo e o astrônomo Cónon enuncia que o presente havia se transformado em uma constelação, assim chamada de Cabeleira de Berenice. Verônica é a forma latinizada de Berenice. Verônica esta viva para nos dar esperança para seguir lutando por nossas constelações, por nosso feminino. 

Aline Castro