22 março 2015

Individuação

Meu pai, 

Esta noite sonhei com você. Não é a primeira vez, mas desta vez quem te salva sou eu. 
Estamos finalmente separados em corpo e alma. Consigo enxergar a sua fragilidade. 

Meu frágil pai. Doce olhar de palavras frias. Palavras trêmulas, prestes a cair e desabar a fala, o corpo, o homem. 
Estávamos na praia, havia um dilúvio e nós corríamos. Eu segurava a sua mão e o puxava entre caminhos estreitos de pedra que levavam à salvação. Nós sorríamos. Somos muito sorridentes, você bem sabe, esperançosos nos limites da inconseqüência. Acreditamos. Acreditamos em tudo, nos anjos, na bondade, na vida, nas mortes e eu te dizia: “Pai, é preciso deixar tudo aqui. Precisamos seguir só com o corpo e as vestes”. E você não sabia o que era seu, o que era seu corpo, o que era sua casa, o que era o ambiente. 

Pai, você sempre seguiu. Sua felicidade era a minha felicidade. Mas desta vez, pai, não estou feliz. Aceite a minha tristeza com alegria. Estamos finalmente separados e a culpa não é sua. Apresento-lhe meu corpo próprio como se vê: fértil e seco, alegre e triste, amoroso e rancoroso, todas as antíteses que cabem na minha humanidade. Desta vez, pai, estou feliz. Livre de ser o que queríamos que eu fosse. Sou eu quem está aqui e talvez este não seja o corpo ideal-idealizado de ti. Mas é o corpo que te estende a mão e te puxa sorrindo. Nos olhamos nos olhos, fora dos olhos fundidos de antes. Posso ver-te frágil. Posso abraça-lo com compaixão. Posso ser triste finalmente, quando senti-lo. E não haverá culpa. Não é nossa culpa. 

Pai, sou mulher. Às vezes também sonho que estou no colo da grande-mãe. Vejo me no útero protegido de minha mãe e no abrir dos olhos, estou na cama sozinha. Não sou adulta ao abrir os olhos. As histórias vivem através do tempo, nos desencontros das almas com seus corpos, transitando em territórios passados, presentes e futuros. Quem ampara sua filha agora, pai, é parte de ti, da mãe e de tantos invisíveis que transitam, que se fixam, que despertam, que inspiram, que potencializam, que ferem, que agonizam, que choram, que vivem, que seguem transformando-me em amor. O colo da grande mãe esta em mim. 


Não tenha medo de correr e nadar no dilúvio. Desta vez quem lhe estende a mão sou eu. E apesar de não saber nadar, não tenho medo. Você me ensinou a não temer. Seu corpo teme. O meu não. 

CASTRO