29 março 2015

Da clínica (ou Da Experiência Psicanalítica)

Em carta íntima sobre o segredo da relação que constrói, as palavras de Júlia encontraram pequena fenda no infinito oceano de expressões das emoções, que de incompreendidas passaram a ser folhas ao vento do alívio.

Da tentativa de entender a experiência emocional
Livrei-me das amarras que estrangulavam minha entranhas
Ansiosas por uma voz que as metamorfoseassem
Num longo e lento processo

Do silêncio fez-se o verbo
Da angústia viu-se a luz
Que numa feroz intensidade
Partiu-me em duas, quatro, muitas

Até que eu assumisse o desconhecido
E me livrasse da ilusão do que nunca controlei
E parti-me em tantas descontruções:
Inesperadas frações recém-conhecidas de mim

Do gesso, renasci flexível
Assumindo formas (im)previstas da imaginação
De águas que há anos correm em mim
Transbordando com erotismo e incontrolável desejo

De você, que me foi espelho
Quis fazer-me sua em fantástica dança
Que apenas no corpo encontra forma
Eclipsada pelo nosso único confronto verbal:

"Que sentido encontrar na experiência de estar junto?
Sem que tamanha intimidade faça-me afastar-me de mim?
E que não me cegue com o calor do corpo meu
Pra que, vendo-me em mim, eu tenha vivo o afeto com você."

Pro restante processo, só sobrou o único desejo:
Desenho traduzido em registro de amor
Eternalizado, visto que é chama atemporal
E infinito, visto que carrega em si a própria criação.

Beatriz Laiate