29 março 2015

Da clínica (ou Da Experiência Psicanalítica)

Em carta íntima sobre o segredo da relação que constrói, as palavras de Júlia encontraram pequena fenda no infinito oceano de expressões das emoções, que de incompreendidas passaram a ser folhas ao vento do alívio.

Da tentativa de entender a experiência emocional
Livrei-me das amarras que estrangulavam minha entranhas
Ansiosas por uma voz que as metamorfoseassem
Num longo e lento processo

Do silêncio fez-se o verbo
Da angústia viu-se a luz
Que numa feroz intensidade
Partiu-me em duas, quatro, muitas

Até que eu assumisse o desconhecido
E me livrasse da ilusão do que nunca controlei
E parti-me em tantas descontruções:
Inesperadas frações recém-conhecidas de mim

Do gesso, renasci flexível
Assumindo formas (im)previstas da imaginação
De águas que há anos correm em mim
Transbordando com erotismo e incontrolável desejo

De você, que me foi espelho
Quis fazer-me sua em fantástica dança
Que apenas no corpo encontra forma
Eclipsada pelo nosso único confronto verbal:

"Que sentido encontrar na experiência de estar junto?
Sem que tamanha intimidade faça-me afastar-me de mim?
E que não me cegue com o calor do corpo meu
Pra que, vendo-me em mim, eu tenha vivo o afeto com você."

Pro restante processo, só sobrou o único desejo:
Desenho traduzido em registro de amor
Eternalizado, visto que é chama atemporal
E infinito, visto que carrega em si a própria criação.

Beatriz Laiate

Triste é a noite | Enterrar-se (te)

Todas as noites
Imagino você deitando-se na cama vazia
Engolindo a pílula do sono
Aquecendo-se em mais de dois cobertores
Afastando os gatos para a sala
Vedando o quarto
Ligando o ar condicionado
Condicionando a mente ao esvaziamento 

A noite te chama, você sabe
Fala baixo no teu ouvido seus medos
Abre a cápsula que te protege 
Te deixando ao incosciente 
Ao desconhecido 
Tão estrelado e soturno quanto um universo

E o tempo canta "tic tac, tic tac"
No sangue corre a sertralina, clonazepam, alprazolan 
Amortecendo
Anoitecendo o sangue-corrente-vibrante-passional

Não a de passar, não a de passar. 

Soltando a minha mão
Você sangra e estanca sorrindo-solitária-dormindo-morrendo-caindo.

Triste é a noite

CASTRO

22 março 2015

Individuação

Meu pai, 

Esta noite sonhei com você. Não é a primeira vez, mas desta vez quem te salva sou eu. 
Estamos finalmente separados em corpo e alma. Consigo enxergar a sua fragilidade. 

Meu frágil pai. Doce olhar de palavras frias. Palavras trêmulas, prestes a cair e desabar a fala, o corpo, o homem. 
Estávamos na praia, havia um dilúvio e nós corríamos. Eu segurava a sua mão e o puxava entre caminhos estreitos de pedra que levavam à salvação. Nós sorríamos. Somos muito sorridentes, você bem sabe, esperançosos nos limites da inconseqüência. Acreditamos. Acreditamos em tudo, nos anjos, na bondade, na vida, nas mortes e eu te dizia: “Pai, é preciso deixar tudo aqui. Precisamos seguir só com o corpo e as vestes”. E você não sabia o que era seu, o que era seu corpo, o que era sua casa, o que era o ambiente. 

Pai, você sempre seguiu. Sua felicidade era a minha felicidade. Mas desta vez, pai, não estou feliz. Aceite a minha tristeza com alegria. Estamos finalmente separados e a culpa não é sua. Apresento-lhe meu corpo próprio como se vê: fértil e seco, alegre e triste, amoroso e rancoroso, todas as antíteses que cabem na minha humanidade. Desta vez, pai, estou feliz. Livre de ser o que queríamos que eu fosse. Sou eu quem está aqui e talvez este não seja o corpo ideal-idealizado de ti. Mas é o corpo que te estende a mão e te puxa sorrindo. Nos olhamos nos olhos, fora dos olhos fundidos de antes. Posso ver-te frágil. Posso abraça-lo com compaixão. Posso ser triste finalmente, quando senti-lo. E não haverá culpa. Não é nossa culpa. 

Pai, sou mulher. Às vezes também sonho que estou no colo da grande-mãe. Vejo me no útero protegido de minha mãe e no abrir dos olhos, estou na cama sozinha. Não sou adulta ao abrir os olhos. As histórias vivem através do tempo, nos desencontros das almas com seus corpos, transitando em territórios passados, presentes e futuros. Quem ampara sua filha agora, pai, é parte de ti, da mãe e de tantos invisíveis que transitam, que se fixam, que despertam, que inspiram, que potencializam, que ferem, que agonizam, que choram, que vivem, que seguem transformando-me em amor. O colo da grande mãe esta em mim. 


Não tenha medo de correr e nadar no dilúvio. Desta vez quem lhe estende a mão sou eu. E apesar de não saber nadar, não tenho medo. Você me ensinou a não temer. Seu corpo teme. O meu não. 

CASTRO

17 março 2015

#32 Sobre enterros - Dia 17

À Alves...

Prelúdio

Memória 

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade 

Epílogo

Algumas pessoas nos fazem amar
como nunca imaginamos 

que pudéssemos amar antes
amores antigos ficam ridículos e então
passamos a pensar que nunca mais
amaremos outra pessoa na vida. 
a verdade é que esses amores titânicos
nos ensinam uma coisa apenas:
que, depois deles, será impossível amar menos. 

Prólogo

Onde não se sente, não há. 
Onde não se expressa, não há. 
Onde não se diz, não há. 
Onde não se luta, não há. 
Inerte morre o morto
em seu silêncio de cemitério. 
Não sei enterrar vivos.
Mas é a prática do amor deixar-se ir. 

Castro 


16 março 2015

Centenário do Genocídio Armênio



A CHUVA DE SOL

Um choro jogado do sol
Trazendo sua fria água dourada
De repente, chegou resplandecente.

Era perfeito o brilho da chuva
Cantando uma canção muda pra mim
Limpou minha cinza em chamas.

Autor em armênio (imagem) - Alexandre Hamada Possi
Tradução: Sarkis Ampar Yeghiazaryan
Fonte: Folha de SP 

POVO CIGANO

Meu povo cigano, povo armênio
Não se calará ao sangue derramado
Relembrar é resistir 

Povo das estrelas, 
Teça um tapete de sol
Aqueça os poemas aos montes 
E limpem minha alma flutuante 

Aqui somos guerreiros, guerreiras 
Imperadores de rosas e jasmim 
Semeamos a glória 
Impedimos o fim. 

ALINE CASTRO 




A CHUVA 

09 março 2015

zigmunt bauman- amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos

{...} enquanto vive, o amor paira à beira do malogro. dissolve seu passado à medida que prossegue. não deixa trincheiras onde possa buscar abrigo em caso de emergência. e não sabe o que está pela frente e o que o futuro pode trazer. nunca terá confiança suficiente para dispersar as nuvens e abafar a ansiedade. o amor é uma hipoteca baseada num futuro incerto e inescrutável.
o amor pode ser, e freqüentemente é, tão atemorizante quanto a morte. só que ele encobre essa verdade com a comoção do desejo e do excitamento. faz sentido pensar na diferença entre amor e morte como na que existe entre atração e repulsa. pensando bem, contudo, não se pode ter tanta certeza disso. as promessas do amor são, via de regra, menos ambíguas do que suas dádivas. assim, a tentação de apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é a atração de escapar. e o fascínio da procura de uma rosa sem espinhos nunca está muito longe, e é sempre difícil de resistir.
zigmunt bauman- amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos.

02 março 2015

O alvo

Deflagrar nos fios mais fracos, a tensão de existir-esconder. 
Esconder para não existir-morrer deflagrados em ser, sendo. 
Escolher um alvo secreto para aniquilar a visão de fora do alvo
Ser o alvo para não ser o mundo. 

Daqui, do observatório, fazemos orgias morais à cura e a verdade absoluta. 
nosso argumento do cárcere, nos liberta de nossas humanidades subjugadas de outro. 
estamos limpando as armas. 
e descarregando. 
Haverá sangue e tormenta. 
E nada quebrará o silêncio. 

Quando o dia nascer haverá robôs por todas as partes. Bem vestidos, educados, domesticados. Enfrentando o tráfego, cumprimentando o chefe, sorrindo à equipe, equilibrando as metas, investindo em ações, liberando catracas com cartão funcional, focando no alvo, na tela, na tecla, no dado, na sigla, no código. 
Enfim o mundo que é o homem porque o homem é o mundo. 


Se respirares aliviado, estas focando no alvo. 

CASTRO