14 janeiro 2015

Quem Somos Nós?

Por que continuamos recriando a mesma realidade? Por que continuamos tendo os mesmos relacionamentos? Por que continuamos tendo os mesmos empregos repetidamente? Tudo isso porque acreditamos não termos controle algum, achamos que o mundo externo é que nos influencia. A ciência moderna, entretanto, nos diz que o que acontece dentro de nós é o que vai criar o que acontece fora. (Trecho do filme: Quem Somos Nós?) 




Fazia frio no tilintar dos sinos dos ventos na janela quando descemos até a piscina. O vento apaziguava um dia de manhã calorosa que trocou suas cores por acizentados de nuvens e um nublado poético. Na piscina, um senhor de porte atlético, silenciava o ir e vir da água que misturada ao seu corpo, dançava ao tom de suas mãos. Cumprimentei-lhe e começamos a conversar. Ele, físico, engenheiro e cineasta. Uma enciclopédia humana com a doçura dos ignorantes, tom de voz acalentador. Conversava sobre a vida sob o prisma dos quarks, elétrons e prótons. “Você vê esta cadeira? Quando você deixar de observá-la, ela não existirá mais. Somos co-criadores”. Falamos de amor, espiritualidade, mercado de capitais e os “donos do mundo”, a existência de vida fora da terra, quarta dimensão, teoria das cordas, teoria de Tudo. Com os olhos fixos as feições daquele senhor, percebi sua pupila dilatada, seu gesticular ensimesmado e uma cicatriz em formato de círculo entre os olhos. Havia outra ainda maior no meio do peito, como se tivessem lhe arrancado o coração. De milionário para um consultor classe média, disse que sentiu-se aliviado sem o peso da “matéria”. “Até um quark de partícula tem consciência. Neste matrix, somos ciborgues e não despertamos. É um Blade Runner”. Em muitos momentos sua fala se misturava a um Armagedon romantizado, cheio de informações precisas e contextualizadas. Começou a chover e ele se despediu rapidamente. “Moro embaixo de você, disse. Não me acostumo a viver sozinho. Não entendo o mundo de hoje, todos moram só”. Antes mesmo do fechar da porta do elevador, ele olhou mais uma vez pra mim e disse "Quem é você? Você vai me responder: sou professora, sou mulher... mas, o que é você?". 

E eu mesma voltei ao meu apartamento vazio. Abri um livro, fiz um café. Li um romance ambientado na II Guerra. Tentei dormir, mas me ocupei de relembrar as falas do senhor 72. Cochilei, perdi o sono. Uma mensagem no celular “Estou grávida”. E uma amiga desesperada às três da manhã. Transou uma única vez sem preservativo em Paris. Uma única vez. Trocamos algumas palavras, ela se acalmou. Muitos pensamentos vagaram na minha cabeça às quatro da manhã. Você é um dos mais frequentes. E é por isso que te escrevo. É por isso que me despeço. 

MASNAVI