24 dezembro 2015

Natal

O mundo lá fora é esquisito, amor. 
O lastro tem forma e número, valor. 
Tem corpos magros, negros e pobres 
Sorridentes homens de sorte 

Tem casa bacana, carro do ano 
A roupa certa de se usar, na cartela de cores 
Mas não abuse. É cafona. 

Tem árvore de Natal debaixo do viaduto Alcântara Machado 
Ao lado um colchão, a mulher negra esquelética, a criança brincando no chão. 
Tem pedinte que chora no para-brisas e sai sorrindo em busca do crack. 
Tem esmola. Presentes enviados da culpa cristã. Brinquedos para quem não brinca. 
Bala para quem não escova os dentes. 

O agito das viagens. 
A escolha das melhores drogas para o réveillon
As praias, a compra dos melhores pacotes 
ânsia, pânico, fotografias. 
A pose certa de se fazer, no melhor estilo blasé. 
Mas não abuse. É cafona. 

Tenho mergulhado em mercúrio nanquim 
Me desmanchado como um pote de ouro 

Costuro as sobras do retalho sem fim. 

Castro.

23 dezembro 2015

Miragem

Pensei ter visto um rio. 
Um deleite de águas tranquilas, imponente, um fio. 
linhas tênues cheias de conexões com a vida, um rio. 
Turvas ondas delicadas, verde fio. 

Pensei ter visto a lua 
Refletindo no leito vazio, pedaço de chuva
prateada semente bolinha de lua 

Pensei ter visto meu corpo 
Livre coberto de sopro sendo levado à gosto 
Nu suave-potente entregue, verde fio

Pensei que tivesses lido o poema.  


Castro.

Cacofonia

Clarabóia, clara neve, caleidoscópio girador
Para-raio, para a vida, para disco-voador
Ventania, avoado, vá de reto, desamor 
Para breve, pesa preço, peca o tom, pede pausa. 

Balbucia, a palavra bebe, não seja breve no tom de amor 
De onde surgir o sol, solidifique, sorria leve, aqueça o bom 
Para a vida, ventania breve, solidifique, o voador. 

Castro. 

As palavras e as coisas

Venho te visitar por amor ou por tristeza, você bem sabe. 
Uma sala vazia, um silêncio cortante, nada de barulho de garfos ou de televisão. 
Eu te encaro por horas antes de dizer qualquer coisa. É palpitante te ver de branco. 
Hoje tem chuva na mata. Seremos mais feliz assim, correndo. E você sabe reconhecer uma visita triste. Vai logo abrindo as portas, apressada. Não tenho pressa. Nem precisão. 
Tenho tanto medo, mas isso você também sabe. Não me recusa nunca. Sempre me deu a mão. 
Sabe, caminhando na rua sozinha escrevi uma narrativa sensível de tudo que via. Pensei em gravar, mas dai veio a bomba. Correria. Gritos de ordem. A moça torneada tocando um bumbo, camiseta vermelha, socialista. 
Cada eco do bumbo, um grito. 
A poesia pianissima, entra em adágio. 
Mas… Venho te visitar por amor ou por tristeza, você bem sabe. Tenho passagens de Miller na mente. Queria poder revisita-las, mas não posso. Atordoam meu espírito. 
Queria a mansidão de outrora. 
O corpo quentinho que cobre as costas, o respiro na orelha. 
“Eu te protejo, você me protege”. 

Pra sempre. 

Castro. 

29 outubro 2015

Porto Seguro

Você se segura, eu me seguro.
Seguros ficamos, em cima do mundo 
Daqui afastamos
qualquer infortúnio 
Perdemos a graça, 
do nosso descuido. 

Refugiamos-nos no barco
à deriva no escuro 
sem saber navegar 
Afundamos-nos um no outro. 

CASTRO

19 outubro 2015

Para: a cigana

Estirou os braços desenhados e amarrou alto na cabeça um coque. -solta ele, é bonito assim, eu disse. me olhou pensativa e disse que se gostava daquele jeito, presa, no alto da cabeça, pois pesquisara outros tipos de amarrar fios e o coque no cume do cranio era seu penteado preferido. gostava dos cabelos (e relacionamentos) longos num vermelho suave - a largura dos fios permitia a ela esticar nos olhos sua presença do presente até o futuro, e o vermelho suave a lembrava das vivências, das dores e a mantinha viva. -você fica linda de cabelo solto, solte ele pra mim, insisti. ela buscou mais um grampo na gaveta, me resmungou pra voltar daqui dez anos, e terminou de prender o fiozinho negro que se caía por trás da orelha.
Por: http://andarilhadeeu.blogspot.com.br/2015/10/pablo.html

06 outubro 2015

Das afecções pós-modernas

Enquanto é noite
Efetua-se o sagrado silêncio dos vivos
que ancorados em seus redemoinhos 
dormem vazios. 

Seus corpos se levantam, tocam as máquinas 
circulam os fluxos sanguíneos 
das (des) memórias axiomatizadas 
das irrisórias jornadas urbanas

Nossos corpos se deitam, desligam as máquinas 
acionam a aorta torácica em linhas de fuga 
pequenos circuitos de fé 
profundas jornadas interestelar 

Cessamos as ondas eletromagnéticas 
em nossa imanência incompleta e caótica 
Geramos o mundo. 

Nascemos amor. 

CASTRO

30 setembro 2015

Escute só. Isso é muito sério.

Ressoa, ao nosso redor, o silêncio fecundo e escuro das raízes , a escuridão de todas as coisas que vivem e crescem e são muitas, constantemente em mudança. Somos na noite como quem hiberna, somos na noite como quem se firma na terra e se alimenta e cresce entre todas as escuridões fecundas, somos na noite como o que se não vê em círculo de coisas que acabam e coisas que começam sempre, incontroláveis. Seremos os dois assim, raízes envoltas em silêncios, quando o mundo morre e explode à nossa volta em cacofonias de vermelhos e amarelos e laranjas finais, dormimos envoltos em vida. E ressurgiremos na luz, frágeis, ternos,finitos, como todas as coisas que nascem e florescem.

Entre o véu dos vivos e dos mortos, de todas as legiões de fantasmas e monstros, a fina, ténue linha do nosso silêncio. Comungamo-nos as longas noites e a escuridão primitiva de todas as coisas secretas que ninguém sabe, todos os gestos inúteis, todas as esperas, comungamo-nos inteiros, entre vivos e mortos e terrores de noites escuras. Devoramo-nos entre a celebração das coisas, vivas, que começam em novos círculos eternos e tudo o que foi antes de nós e é morto e está escondido, mas presente, apesar de tudo, entre as nossas linhas de silêncio.


Nos ligamos ao verde marejado de olhares silenciosos, longas afecções de almas nômades. Somos a nau, velas ao vento, atravessa-nos a luz e as ondas movendo desejos antigos, inomináveis, tirando o mofo e pó, das noites de inverno cheia de solidões e culpas. Nossos corpos são catedrais de silêncio. Remontam a terra. Libertamos as vozes e as luzes. Morremos e nascemos em novos batismos, entre paralisias e lágrimas, gemidos e abraços tão apertados quanto um feixe, um feixe de esperança, de potência de vida, de efetuação. E também somos um rio, desaguamos segredos, encharcamos lençóis, afinamos silêncios, somos a prece, o Deus, o homem, o corpo, a alma, o espírito, somos a vida, as vidas, ontem, hoje, amanhã, todo devir que se efetua agora que estamos livres. 

CASTRO.

11 setembro 2015

Delírio-Deleuziano


Querida,
Nesta noite escura, sob o manto estrelado
Canta e uiva a lua
Nosso corpo misturado 

Religare a-mar-é 
Grandes ondas, baixos rios. 
Corpos brandos, corpos nômades 
Corpos improdutivos da fixação heurística 

organismos vivos 
potências do devir 

Querida,
sexualize-me com o anti-falo interpenetrativo 
goze saliva com o vai e vem da sua língua 
metendo, expelindo a água, o sal e o mar. 

dance lânguidas pernas 
no cruzamento das minhas/tuas coxas 
em minhas pulsões amorfas 
no cio do meu olfato penetrativo 
que encontra suas cavidades engolindo meus dedos 
sôfrega, desejante, 

um corpo sem órgãos 
que produz realidades 
tão incertas, quanto imperfeitas 
tão sinceras, quanto rarefeitas 
Apenas retratos da arte-vida 
do sexo-artístico de materialidades nuas 
você, eu, o espelho. 
atravessando labirintos e criando novos labirintos 
atravessando corpos e criando novos corpos 
esculturas de femininos e masculinos 
invertebrados 
degenerados 

A língua do pau. 
O buraco do dedo.
A riste do cú. 
O movimento. A criação. 


Deusas que somos do nosso desejo sem bordas. 

CASTRO 

"Eu crio um corpo que não perde o devir, um corpo em acontecimento, que é condição de si próprio. Os órgãos se tornam meios de mim mesmo. Abrir as portas do corpo para a vida potente e fechar para as armadilhas” – Luiz Fuganti.

07 agosto 2015

Diacrônica Sacrossanta da Existência

vida
essa materialidade diminuta
de dimensão explosiva 
imaginária de infinita 
cambiante de partida 
integrante na caída 

na saída 
ou nas saídas 
que tateiam 
corporalidades, imaterialidades
insanidades, animosidades 
humanidades quase humanas
intoleravelmente humanas

Inda
que tornem as florestas 
as cinzas
haverá resistência explosiva
imaginária 
e infinita 

CASTRO

14 julho 2015

Tempos Modernos

Quanto mais visível nos tornávamos, mais amargávamos o sensível da invisibilidade. Zumbis autocomunicantes. Movimento de corpos anestesiados-robóticos-automatizados. Relações assépticas-milimétricamente calculadas. Qualquer erro pode ser fatal. Mortal. Um erro e pode ser amor.

CASTRO


11 julho 2015

#Fevereiro


Escute só. Isso é muito sério. 

#Santuário


Não tive tempo de lhe mostrar Arvo Pärt.
Conheci sua mãe pelo brilho que irradiava dos teus olhos ao falar dela. Se formava uma nascente fluída de águas tranquilas que flutuavam sem bordas para todos os lados da terra. De espessura translúcida, temperatura da calma, um útero. Seu útero. O único lugar que você seria capaz de flutuar sem o próprio peso. Desmanchariam-se os calos de dentro da sua boca. Seus braços se abririam, em formato de cruz, invadido pela luz do sol, essa potência de vida imensa que se convida a cada amanhecer. Seu corpo seria transformado em lágrima, em milhares de gotas derramando-se no útero. Um abraço de vida, de esperança, de ressurreição. Não seria a última vez do nascimento. Não seria a última vez que enfrentaria a morte. 
Neste dia chuvoso, de silêncio espiritual, não morra. 
Somos filhos da Terra. (E da Grande-Mãe, Odôiyá!)
Não tenha medo. 

Deixe-a escutar (sua mãe), ainda que com dificuldades, o som (a música) da expectativa. Da imanência. Da vida. Daquilo que não se dilui com o apagamento da matéria-corpo. Aquilo que esta ali, escondido, silenciado, mas que vive. Vive fora do corpo. Vive nos teus olhos, nas tuas palavras que escapam de alguma doçura (que com tanto esforço é silenciada), da pulsação de um coração batente, uma alma que pede vida sem pedir, um corpo que quer acalento. Deixe-se ir. Não adoeça. 
Há um santuário no amor. 
Não tenha medo. 





Castro

23 junho 2015

El cuerpo utópico. Las heterotopías

Talvez seria preciso dizer também que fazer o amor é sentir seu corpo se fechar sobre si, é finalmente existir fora de toda utopia, com toda a sua densidade, entre as mãos do outro. Sob os dedos do outro que te percorrem, todas as partes invisíveis do teu corpo se põem a existir, contra os lábios do outro os teus se tornam sensíveis, diante de seus olhos semi-abertos teu rosto adquire uma certeza, há um olhar finalmente par ver tuas pálpebras fechadas. Também o amor, assim como o espelho e como a morte, acalma a utopia do teu corpo, a cala, a acalma, a fecha como numa caixa, a fecha e a sela. É por isso que é um parente tão próximo da ilusão do espelho e da ameaça da morte; e se, apesar dessas duas figuras perigosas que o rodeiam, se gosta tanto de fazer o amor é porque, no amor, o corpo está aqui". In: FOUCAULT, Michel. El curpo utópico. Las heterotopías

(http://www.ihu.unisinos.br/noticias/38572-o-corpo-utopico-texto-inedito-de-michel-foucault)

O olho mais azul

"Todos nós- todos os que a conheceram- nos sentíamos tão higiênicos depois de nos limparmos nela. Éramos tão bonitos quando montávamos na sua feiúra. A simplicidade dela nos condecorava, sua culpa nos santificava, sua dor nos fazia reluzir de saúde, seu acanhamento nos fazia pensar que tínhamos senso de humor. Sua dificuldade de expressão nos fazia acreditar que éramos eloqüentes. Sua pobreza nos mantinha generosos. Até seus devaneios usamos- para silenciar nossos próprios pesadelos. Nela, afiamos o nosso ego, com a fragilidade dela reforçamos nosso caráter, e bocejávamos na fantasia de nossa força.
E era fantasia, pois não éramos fortes, apenas agressivos; não éramos livres, meramente autorizados; não éramos compassivos, éramos polidos; não bons, mas bem comportados. Cortejávamos a morte a fim de nos chamarmos de corajosos, e escondíamos da vida como ladrões. Substituíamos intelecto por boa gramática; mudávamos os hábitos para simular maturidade; rearranjávamos mentiras e as chamávamos de verdade".
Toni Morrison, in: O olho mais azul.

11 junho 2015

Tu, que só existe em mim

PRÓLOGO 

Não me manietei. Dei-me totalmente e fui.
Aos deleites, que metade reais,
metade volteantes dentro da minha cabeça estavam,
fui para dentro da noite iluminada.

E bebi dos vinhos fortes, tal
como bebem os denodados do prazer.

(Konstandinos Kavafis - Fui)

EPÍLOGO

De súbito
O ímpeto 
Submete 
(me) à encarar 
(me) te 
a face narcísica  
de nós. 

tu e eu. 
a luz e a sombra 
do espelho. 

O pulsante é desespero
À fronteira, vive o medo 
E…

Quero-te, quero-te 
Perdida em meus delírios pujantes 
Sedenta da carne 
Desejante.
Reduzida a lampejos e instantes 
tão catastróficos quanto infantes 

Não sacia (me)
A avidez discreta

deste mundo 

E não te tomo 
Porque não existes
Fora de mim (de ti) 

E esse é o segredo mais encantador. 

CASTRO 

02 junho 2015

Pobre menina rica

É na sombra da noite que o silêncio do mundo 
Toca seu coração
Palmo a palmo, encosta a cabeça no seu peito
E descansa a solidão 

Na sina da noite as corujas entrecortam com seu olhar gritante o silêncio do mundo, a expor verdades e mentiras ditas e não ditas da vida.
Das águas que bebem, das águas correntes, das águas que choram,
Das Rodas-moinhos, das chuvas que deságuam cheias de dó e
Dos oceanos de estrelas vertentes de amor,
Tidas nos transbordantes peitos e prantos dos poetas, profetas, sábios, loucos e outros.


É na sombra da noite que o mundo te cala
E o vazio do teu coração 
Palmo a palmo, escorre a mão materna 
Trans-formada 
Na sede incessante 
de Trans-ceder. 
Trans-corpos-fragilizados
Que são você. 

Tua alma não repousa. 
Não se acha. 
Trans-mutou. 

Multi-tarefaria-obsessões-em-rede
conectividade-ativista-non stop. 
Se parar 

Percebe que já morreu. 

CASTRO

27 maio 2015

A última dança

Quando a vi pela primeira vez, reconheci em sua coluna vertebral a rigidez simulada de quem ordena os sustentáculos a imprimirem a imagem sinônimo de uma visualidade de ordem, ordenada. Não fosse pela maciez curvilínea do pescoço desenhando sua feminilidade abstrata e humana, não teria visto sua alma engendrada em tamanha altivez. A fala era pausada, fonemas que se apresentavam de par em par, curvando-se e cumprimentando a realeza política de seu discurso. Palavras caiam dos lábios suaves, de forma ordenada, militar. Era possível sentir o compasso de sua respiração. O ir e vir do ar quente e frio. O ir e vir coordenado. 
O som foi ficando intenso, intenso, até que reverberou o silêncio. Deste silêncio (mental) nasceu Eros. A simulação ou o simulacro? A alucinação compartilhada socialmente chamamos realidade. Porém a imagem que vi pela segunda vez, era reprodução técnica de si. A experiência imagética desmaterializada. O que vejo é mediado pelos sentidos e o universo é um universo de representações.  
Quando a vi pela terceira vez, sua nudez real e simbólica parecia frágil. Consumia-me com a avidez de êxtase orgiástico (orgia-consumo-capital) entregue à busca sôfrega por sentido (sentir-se), em seu simulacro de corpo e consciência. A perversão erotizada transformava a experiência corporal em imagem, em um exibicionismo delirante de sua nulidade. Quanto mais visível nos tornávamos, mais amargávamos o sensível da invisibilidade. Zumbis autocomunicantes. 
Quando mergulhei profundamente no real, escolhi a vida. As coisas não se tornaram visíveis a um olho externo, e sim, transparentes em si mesmas. E na quarta vez que te vi, uma imagem como um vórtex por onde traspassa energia, deu sentido à Eros. Nem simulação, nem simulacro. Eros, desdobramento do sentir corpóreo de todos os sentidos, ampliação de consciência. Inteiro porque não se encerra no gozo. No gozo do apagamento do corpo. Na repetição inumerável, na acumulação quantitativa. Na aliteração fuga depressiva (fuga da depressão- do corpo não desejante). Do desamparo profundo dos teus olhos infantis-puro-Eros (o Duplo da tua criança assustada) e da imagem técnica reproduzida pela (sua) retina, simulacro de força e altivez do corpo (Thanatos) que não está. 
Quando tiro sua roupa não é para revelar o nu, nem para desvelar seus segredos. É para fazer aparecer esse corpo como definitivamente enigmático, definitivamente secreto, como objeto puro, cujo segredo não será nunca revelado e não tem de ser. 
CASTRO

22 maio 2015

Dodecafônico

Penso
Em você
às vezes.

Escrevo.
Oras mando, 
Ora esqueço 

Horas
invento. 

H (oras)
Tento 

Inverto 
o intento 
ao tom do vento

Ao som
Do tempo
(teu) tempo

Suspendo
Dependo
Repreendo 

Ora, esqueço. 
(de nós) 

CASTRO






25 abril 2015

Mil léguas submarinas

Do alto de onde se desprendem as ondas
Descia fluída ao fundo do mar

Vencia a cólera de dias amargos 
Respirava ofegante, 
Longe ao naufrágio 

Meu peito, leve brumado 
Meus olhos vidrados
Meu corpo a nadar. 

Polvo, múltiplos tentáculos, goza
Goza de mim
Interminável onda de fricção 
Lânguidos braços e bocas
Convulsionam à febre 
Salvaguardam a alma 
anestesiam-se recônditos 
a livre prisão. 

Reconheço-te, 
e meu desejo não te olvida,
se te olho nos olhos
vejo urzes brotando 
da mesma emoção. 

Polvo, múltiplos tentáculos, goza
Goza de mim,
Interminável luta poética 
que vê na vida, razão. 

Se desci o oceano-mundo 
Abaixem, tentáculos 
Me dê a mão. 

A. Castro 

21 abril 2015

Indianas

Vou encher meu coração 
com o silêncio fixo da tua força 
estremecendo as cordas que sustentam teu pescoço
ecoando tua voz distante 
aos dizeres que brotam 
à beira do malogro 

nascituros madurados das vicissitudes 
na sombra fazedoura
de tuas saias, 
de tuas flores,
de teus sorrisos 

desabrocham flor-de-lotus Grande Mãe
e vive. 
porque luta. 

A. Castro 

15 abril 2015

Verônica Vive

O que o centro traz
é, evidentemente, 
o que existe no fim e existia no início. 

Goethe, Divã Ocidental 

VERÔNICA VIVE 

Um corpo arrastado, desfigurado, semi-nu, com os seios à mostra. Cortaram seus cabelos para castrar sua força, jogaram-na aos leões para que lhe devorassem e reproduziram a imagem de seus restos ao esvaziamento de sentidos, espetacularização do bode expiatório que carrega em si a Medusa e seus cabelos de serpentes que deve ser sacrificada para não petrificar todos aqueles em quem se fixasse seus olhos. Poucos, ou quase ninguém ficou petrificado. Misoginia, transfobia e racismo não petrificam. Verônica, do latim vera, que significa "verdadeira" e icona, que quer dizer “imagem”, materializa-se na imagem verdadeira de sua própria luta. A luta de todas as mulheres, de todas as Verônicas. A batalha que se combate com sangue, ao dessabor da transfiguração das Marias da Penha, da nudez vexatória do machismo (aquela mesma que também se traja em assédio cotidiano), da injustiça que tem cor e classe social, do ódio e da intolerância. 
Medusa era mortal. Ao ser decapitada por Perseu, foi colocada no escudo da deusa Atena para afugentar o mal. Coloquemos nosso escudo todos os dias para que nunca esqueçamos dessas mulheres, símbolos de nossas lutas. 

Lembremo-nos de Berenice, esposa de Ptolomeu, que ofereceu à Afrodite seus cabelos para ter em seus braços o marido que estava na guerra. Seus cabelos desapareceram do templo e o astrônomo Cónon enuncia que o presente havia se transformado em uma constelação, assim chamada de Cabeleira de Berenice. Verônica é a forma latinizada de Berenice. Verônica esta viva para nos dar esperança para seguir lutando por nossas constelações, por nosso feminino. 

Aline Castro 

29 março 2015

Da clínica (ou Da Experiência Psicanalítica)

Em carta íntima sobre o segredo da relação que constrói, as palavras de Júlia encontraram pequena fenda no infinito oceano de expressões das emoções, que de incompreendidas passaram a ser folhas ao vento do alívio.

Da tentativa de entender a experiência emocional
Livrei-me das amarras que estrangulavam minha entranhas
Ansiosas por uma voz que as metamorfoseassem
Num longo e lento processo

Do silêncio fez-se o verbo
Da angústia viu-se a luz
Que numa feroz intensidade
Partiu-me em duas, quatro, muitas

Até que eu assumisse o desconhecido
E me livrasse da ilusão do que nunca controlei
E parti-me em tantas descontruções:
Inesperadas frações recém-conhecidas de mim

Do gesso, renasci flexível
Assumindo formas (im)previstas da imaginação
De águas que há anos correm em mim
Transbordando com erotismo e incontrolável desejo

De você, que me foi espelho
Quis fazer-me sua em fantástica dança
Que apenas no corpo encontra forma
Eclipsada pelo nosso único confronto verbal:

"Que sentido encontrar na experiência de estar junto?
Sem que tamanha intimidade faça-me afastar-me de mim?
E que não me cegue com o calor do corpo meu
Pra que, vendo-me em mim, eu tenha vivo o afeto com você."

Pro restante processo, só sobrou o único desejo:
Desenho traduzido em registro de amor
Eternalizado, visto que é chama atemporal
E infinito, visto que carrega em si a própria criação.

Beatriz Laiate

Triste é a noite | Enterrar-se (te)

Todas as noites
Imagino você deitando-se na cama vazia
Engolindo a pílula do sono
Aquecendo-se em mais de dois cobertores
Afastando os gatos para a sala
Vedando o quarto
Ligando o ar condicionado
Condicionando a mente ao esvaziamento 

A noite te chama, você sabe
Fala baixo no teu ouvido seus medos
Abre a cápsula que te protege 
Te deixando ao incosciente 
Ao desconhecido 
Tão estrelado e soturno quanto um universo

E o tempo canta "tic tac, tic tac"
No sangue corre a sertralina, clonazepam, alprazolan 
Amortecendo
Anoitecendo o sangue-corrente-vibrante-passional

Não a de passar, não a de passar. 

Soltando a minha mão
Você sangra e estanca sorrindo-solitária-dormindo-morrendo-caindo.

Triste é a noite

CASTRO

22 março 2015

Individuação

Meu pai, 

Esta noite sonhei com você. Não é a primeira vez, mas desta vez quem te salva sou eu. 
Estamos finalmente separados em corpo e alma. Consigo enxergar a sua fragilidade. 

Meu frágil pai. Doce olhar de palavras frias. Palavras trêmulas, prestes a cair e desabar a fala, o corpo, o homem. 
Estávamos na praia, havia um dilúvio e nós corríamos. Eu segurava a sua mão e o puxava entre caminhos estreitos de pedra que levavam à salvação. Nós sorríamos. Somos muito sorridentes, você bem sabe, esperançosos nos limites da inconseqüência. Acreditamos. Acreditamos em tudo, nos anjos, na bondade, na vida, nas mortes e eu te dizia: “Pai, é preciso deixar tudo aqui. Precisamos seguir só com o corpo e as vestes”. E você não sabia o que era seu, o que era seu corpo, o que era sua casa, o que era o ambiente. 

Pai, você sempre seguiu. Sua felicidade era a minha felicidade. Mas desta vez, pai, não estou feliz. Aceite a minha tristeza com alegria. Estamos finalmente separados e a culpa não é sua. Apresento-lhe meu corpo próprio como se vê: fértil e seco, alegre e triste, amoroso e rancoroso, todas as antíteses que cabem na minha humanidade. Desta vez, pai, estou feliz. Livre de ser o que queríamos que eu fosse. Sou eu quem está aqui e talvez este não seja o corpo ideal-idealizado de ti. Mas é o corpo que te estende a mão e te puxa sorrindo. Nos olhamos nos olhos, fora dos olhos fundidos de antes. Posso ver-te frágil. Posso abraça-lo com compaixão. Posso ser triste finalmente, quando senti-lo. E não haverá culpa. Não é nossa culpa. 

Pai, sou mulher. Às vezes também sonho que estou no colo da grande-mãe. Vejo me no útero protegido de minha mãe e no abrir dos olhos, estou na cama sozinha. Não sou adulta ao abrir os olhos. As histórias vivem através do tempo, nos desencontros das almas com seus corpos, transitando em territórios passados, presentes e futuros. Quem ampara sua filha agora, pai, é parte de ti, da mãe e de tantos invisíveis que transitam, que se fixam, que despertam, que inspiram, que potencializam, que ferem, que agonizam, que choram, que vivem, que seguem transformando-me em amor. O colo da grande mãe esta em mim. 


Não tenha medo de correr e nadar no dilúvio. Desta vez quem lhe estende a mão sou eu. E apesar de não saber nadar, não tenho medo. Você me ensinou a não temer. Seu corpo teme. O meu não. 

CASTRO

17 março 2015

#32 Sobre enterros - Dia 17

À Alves...

Prelúdio

Memória 

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade 

Epílogo

Algumas pessoas nos fazem amar
como nunca imaginamos 

que pudéssemos amar antes
amores antigos ficam ridículos e então
passamos a pensar que nunca mais
amaremos outra pessoa na vida. 
a verdade é que esses amores titânicos
nos ensinam uma coisa apenas:
que, depois deles, será impossível amar menos. 

Prólogo

Onde não se sente, não há. 
Onde não se expressa, não há. 
Onde não se diz, não há. 
Onde não se luta, não há. 
Inerte morre o morto
em seu silêncio de cemitério. 
Não sei enterrar vivos.
Mas é a prática do amor deixar-se ir. 

Castro 


16 março 2015

Centenário do Genocídio Armênio



A CHUVA DE SOL

Um choro jogado do sol
Trazendo sua fria água dourada
De repente, chegou resplandecente.

Era perfeito o brilho da chuva
Cantando uma canção muda pra mim
Limpou minha cinza em chamas.

Autor em armênio (imagem) - Alexandre Hamada Possi
Tradução: Sarkis Ampar Yeghiazaryan
Fonte: Folha de SP 

POVO CIGANO

Meu povo cigano, povo armênio
Não se calará ao sangue derramado
Relembrar é resistir 

Povo das estrelas, 
Teça um tapete de sol
Aqueça os poemas aos montes 
E limpem minha alma flutuante 

Aqui somos guerreiros, guerreiras 
Imperadores de rosas e jasmim 
Semeamos a glória 
Impedimos o fim. 

ALINE CASTRO 




A CHUVA 

09 março 2015

zigmunt bauman- amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos

{...} enquanto vive, o amor paira à beira do malogro. dissolve seu passado à medida que prossegue. não deixa trincheiras onde possa buscar abrigo em caso de emergência. e não sabe o que está pela frente e o que o futuro pode trazer. nunca terá confiança suficiente para dispersar as nuvens e abafar a ansiedade. o amor é uma hipoteca baseada num futuro incerto e inescrutável.
o amor pode ser, e freqüentemente é, tão atemorizante quanto a morte. só que ele encobre essa verdade com a comoção do desejo e do excitamento. faz sentido pensar na diferença entre amor e morte como na que existe entre atração e repulsa. pensando bem, contudo, não se pode ter tanta certeza disso. as promessas do amor são, via de regra, menos ambíguas do que suas dádivas. assim, a tentação de apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é a atração de escapar. e o fascínio da procura de uma rosa sem espinhos nunca está muito longe, e é sempre difícil de resistir.
zigmunt bauman- amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos.

02 março 2015

O alvo

Deflagrar nos fios mais fracos, a tensão de existir-esconder. 
Esconder para não existir-morrer deflagrados em ser, sendo. 
Escolher um alvo secreto para aniquilar a visão de fora do alvo
Ser o alvo para não ser o mundo. 

Daqui, do observatório, fazemos orgias morais à cura e a verdade absoluta. 
nosso argumento do cárcere, nos liberta de nossas humanidades subjugadas de outro. 
estamos limpando as armas. 
e descarregando. 
Haverá sangue e tormenta. 
E nada quebrará o silêncio. 

Quando o dia nascer haverá robôs por todas as partes. Bem vestidos, educados, domesticados. Enfrentando o tráfego, cumprimentando o chefe, sorrindo à equipe, equilibrando as metas, investindo em ações, liberando catracas com cartão funcional, focando no alvo, na tela, na tecla, no dado, na sigla, no código. 
Enfim o mundo que é o homem porque o homem é o mundo. 


Se respirares aliviado, estas focando no alvo. 

CASTRO

28 janeiro 2015

Sargaços, de Waly Salomão

Sargaços, de Waly Salomão
Criar é não se adequar à vida como ela é,
Nem tampouco se grudar às lembranças pretéritas
Que não sobrenadam mais.
Nem ancorar à beira-cais estagnado,
Nem malhar a batida bigorna à beira-mágoa.
Nascer não é antes, não é ficar a ver navios,
Nascer é depois, é nadar após se afundar e se afogar.
Braçadas e mais braçadas até perder o fôlego
(Sargaços ofegam o peito opresso),
Bombear gás do tanque de reserva localizado em algum ponto
Do corpo
E não parar de nadar,
Nem que se morra na praia antes de alcançar o mar.
Plasmar
bancos de areias, recifes de corais, ilhas, arquipélagos, baías,
espumas e salitres,
ondas e maresias.
Mar de sargaços
Nadar, nadar, nadar e inventar a viagem, o mapa,
o astrolábio de sete faces,
O zumbido dos ventos em redemoinho, o leme, as velas, as cordas,
Os ferros, o júbilo e o luto.
Encasquetar-se na captura da canção que inventa Orfeu
Ou daquela outra que conduz ao mar absoluto.
Só e outros poemas
Soledades
Solitude, récif, étoile.
Através dos anéis escancarados pelos velhos horizontes
Parir,
desvelar,
desocultar novos horizontes.
Mamar o leite primevo, o colostro, da Via Láctea.
E, mormente,
remar contra a maré numa canoa furada
Somente
para martelar um padrão estóico-tresloucado
De desaceitar o naufrágio.
Criar é se desacostumar do fado fixo
E ser arbitrário.
Sendo os remos imateriais
(Remos figurados no ar pelos círculos das palavras.)

23 janeiro 2015

There could be love somewhere

Flowers blowing through the wind 
I can feel it from the skin 
while riders feel free in their bikes 
the girl with powerful eyes come alone 
bombshell-supernova-hot spring 
maybe is just autumn’s breath 

come dance with me.
come dance with me. 
we can ride through the night 
watch the time as it goes by 

listening to my folk music
dreaming of great guitars 
listening to our soul come easy 
through the night 


there could be love somewhere. 

CASTRO