16 dezembro 2014

Sobre entardecer


Todos têm pressa. Observo o vai e vêm dos transeuntes sentada debaixo da árvore da praça. Crianças brincam com as babás, velhinhos tomam sol na cadeira de rodas. A vida vista daqui é lenta. Gosto de lentidão. No dia que sai de casa para te encontrar, não tive pressa. Entreolhamos-nos como quem revê um amor de infância, com olhar sereno e a calma de quem sabe-se vista. Nós nos vimos. Eu, que sempre fiquei debaixo da árvore observando o ir e e vir da vida, fui descoberta. Senti naquele momento que nunca tinham me percebido este tempo todo. Toquei suas mãos pequenas e senti o perfume dos teus cabelos, a simetria dos teus seios, a beleza cotidiana da tua nudez poética de noite soturna (de pijama, de maquiagem, nua…). Simples, simples, a Grande Beleza da tua intimidade. O desejo desesperado deu lugar ao desprendimento do amor delicado, inteiro. Gosto de lentidão. Horas tocando teu corpo como um espaço deveras conhecido para nascer e morrer infinitas vezes. Sua voz falando ritmada no meu ouvido, como uma prece aos que aguardam a salvação. Morremos e nascemos nas horas infinitas que fizemos amor. Fazemos amor. Construímos amor, trocamos amor porque temos amor em excesso, amor genuíno, amor destinado a ser pleno, a ser suave, a ser leve-leve nanquim. Logo você, que ri de si e dos teus tormentos. Vejo-te leve pluma sem assopro. Calma, calma, caindo devagar à margem do parque onde as crianças brincam com as babás. Seu riso é meu orgasmo. Sua leveza, meu alimento da alma. E fazemos amor rindo-rindo-rindo horas e horas que não são contadas porque não somos de celular, de relógio, de hora marcada, de rigidez. Somos livres, leves, encantadas com estas ruas e a poesia que ecoa da sombra. Reconhecemos-nos, porque reconhecemos poesia no caos. Não estamos no tic-tac. Estamos em ha-ha-ha. Estamos em tchibum. Estamos em miau. Vamos colorindo o caminho e fazendo amor. Multiplicando amor. Afastando tudo que não é mar, amor. É finito o meu luto. Morreram todas as vozes que ecoavam rancor e mediocridade. Nunca aceitei uma vida medíocre, simulacros de "bon vivant". Sou raiz fincada no chão com a cabeça nos galhos altos que se perde entre a copa das árvores (...) A vida boa sem as coisas. A vida boa é liberdade e paz. Despida, atraio amor. 

CASTRO