02 dezembro 2014

Invasões Bárbaras

Temos avistado movimentações ao sul, embarcações gigantes com pouca tripulação. Acredito que estejam se aproximando lentamente e precisamos de um interlocutor hábil para negociar com piratas sanguinários. 
Eu, senhor. 
Esperei toda minha vida para ter essa chance. Quero olha-los nos olhos e perceber seu coração palpitante por de trás dos olhos ferrenhos e vidrados. Duas luas cheias congeladas de rancor no céu infinito, prateada redondilha sem brilho, plastificada, vazia. Quero ver a invasão de água azul nanquim esmeralda derramar nossos corpos com as ondas, liquefazendo-nos em alimento para os peixes, transformando-nos em símbolos da multiplicação da vida latente dos rios, das aquáticas memórias profundas-submersas-perdidas. Deixe-me ir. Estou pronto. Não é preparação de nascença, não. É fazedura de guerreiação, sem armadura, sem espada calibre ou inventação semelhante. É preparança que vem da coisa d’alma, da coisa sem organização palavreada. É devir fantástico de ventre corajoso de cigano-perdição. 
(…)
Senhores piratas, peço um pedaço de vossa atenção. Apresente-se, capitão! 
Como ousa ficar ai de chamação? Interpela o capitão pirata. 
Tudo que temos é esta terra, senhor. Vivemos de vossa exploração. Vês aquela casinha? Ali nasci, ali mora meu coração. 
Seu coração fará moradia em minha espada, cigano! 
E a espada perfurou sua artéria até transpassar-lhe a cobertura de osso, empurrando-o para o mar, na perdição. Afundou muitos palmos de medir, até servir de saboreação. 

Senhor capitão-pirata, encontramos esta armadura na casinha do homem-cigano em mal estado de conservação. Levemos pra onde? 

Pouco importa, encarregado. Despiu seu ferro e perdeu o coração. Deve ser coisa da piração, não há vida que respire na terra sem proteção. Deixe-o de exemplo para a população. Desconfiem, desconfiem senhores. 

CASTRO