16 dezembro 2014

17 de Dezembro

A ode,
A ode explode.


Sobre entardecer


Todos têm pressa. Observo o vai e vêm dos transeuntes sentada debaixo da árvore da praça. Crianças brincam com as babás, velhinhos tomam sol na cadeira de rodas. A vida vista daqui é lenta. Gosto de lentidão. No dia que sai de casa para te encontrar, não tive pressa. Entreolhamos-nos como quem revê um amor de infância, com olhar sereno e a calma de quem sabe-se vista. Nós nos vimos. Eu, que sempre fiquei debaixo da árvore observando o ir e e vir da vida, fui descoberta. Senti naquele momento que nunca tinham me percebido este tempo todo. Toquei suas mãos pequenas e senti o perfume dos teus cabelos, a simetria dos teus seios, a beleza cotidiana da tua nudez poética de noite soturna (de pijama, de maquiagem, nua…). Simples, simples, a Grande Beleza da tua intimidade. O desejo desesperado deu lugar ao desprendimento do amor delicado, inteiro. Gosto de lentidão. Horas tocando teu corpo como um espaço deveras conhecido para nascer e morrer infinitas vezes. Sua voz falando ritmada no meu ouvido, como uma prece aos que aguardam a salvação. Morremos e nascemos nas horas infinitas que fizemos amor. Fazemos amor. Construímos amor, trocamos amor porque temos amor em excesso, amor genuíno, amor destinado a ser pleno, a ser suave, a ser leve-leve nanquim. Logo você, que ri de si e dos teus tormentos. Vejo-te leve pluma sem assopro. Calma, calma, caindo devagar à margem do parque onde as crianças brincam com as babás. Seu riso é meu orgasmo. Sua leveza, meu alimento da alma. E fazemos amor rindo-rindo-rindo horas e horas que não são contadas porque não somos de celular, de relógio, de hora marcada, de rigidez. Somos livres, leves, encantadas com estas ruas e a poesia que ecoa da sombra. Reconhecemos-nos, porque reconhecemos poesia no caos. Não estamos no tic-tac. Estamos em ha-ha-ha. Estamos em tchibum. Estamos em miau. Vamos colorindo o caminho e fazendo amor. Multiplicando amor. Afastando tudo que não é mar, amor. É finito o meu luto. Morreram todas as vozes que ecoavam rancor e mediocridade. Nunca aceitei uma vida medíocre, simulacros de "bon vivant". Sou raiz fincada no chão com a cabeça nos galhos altos que se perde entre a copa das árvores (...) A vida boa sem as coisas. A vida boa é liberdade e paz. Despida, atraio amor. 

CASTRO

Green eyes in the sky

Ela sorri com os olhos claros-verdes-verdes-iluminados
Pede para que eu não segure a fala. “Fala mais, fala mais”. 
Ela quer mais, muito mais. 
Nesta boca tímida, os dentes atravessam a sua margem
formando trilhos de gentileza e doçura. 
Doce-doce-mel-brigadeiro-beijinho 
Sonho. 
Colorido-sonho-nuvens-ensolaradas 

Cai a noite, desce o vinho e somos arte 
Declamamos poesia, 
Ela dá vida ao piano, ao violão, ao canto 
Encanta-canta a vida perfumada de paixão 
Magic-Mushaboom-Feist 

"Old dirt road
Knee deep snow
Watching the fire as we grow old
Old dirt road
Rambling rose
Watching the fire as we grow well I'm sold”

Ah, ah, ah, ah… 
Green eyes of mine, 
Suave pétala que me toca a pele-alma 
Miadinhos, baby-cats, baby-boom 
I'll wait for you. You’ll wait for me. 
Dança comigo olhando nos olhos
com saudade mesmo enquanto nos abraçamos 

"Acabou chorare, ficou tudo lindo
De manhã cedinho, tudo cá cá cá, na fé fé fé
No bu bu li li, no bu bu li lindo”

Enquanto todos dormem, 
dancemos. 
Enquanto todos fogem, 
abracemos-nos forte. 
Enquanto todos fecham os olhos,
encaremos-nos. 
Com medo, com vertigem, a porra-toda. 

Fucking lucky
Me deu a mão.

Saímos para dançar e nunca mais voltamos. 

MASNAVI

15 dezembro 2014

Menina dos olhos verdes chorantes

Cataclisma de arco iris multicor 
Vento do Oriente - Salvador 
Assopra meu barco neste mar aberto 
Ri-se de mim e do destino incerto. 

Sorrir, sorrir, encantar-se pelo mundo 
colher flores, atravessar muros 

Quão detalhista é a sorte a minha sombra  
Vejo-me em teu reflexo na luz

Cataclisma de arco irís multicor 
Apaixonar-se, entregar-se ao sabor 
Carrega minha carcaça neste mar aberto 
O amor é meu destino certo. 

CASTRO

02 dezembro 2014

Invasões Bárbaras

Temos avistado movimentações ao sul, embarcações gigantes com pouca tripulação. Acredito que estejam se aproximando lentamente e precisamos de um interlocutor hábil para negociar com piratas sanguinários. 
Eu, senhor. 
Esperei toda minha vida para ter essa chance. Quero olha-los nos olhos e perceber seu coração palpitante por de trás dos olhos ferrenhos e vidrados. Duas luas cheias congeladas de rancor no céu infinito, prateada redondilha sem brilho, plastificada, vazia. Quero ver a invasão de água azul nanquim esmeralda derramar nossos corpos com as ondas, liquefazendo-nos em alimento para os peixes, transformando-nos em símbolos da multiplicação da vida latente dos rios, das aquáticas memórias profundas-submersas-perdidas. Deixe-me ir. Estou pronto. Não é preparação de nascença, não. É fazedura de guerreiação, sem armadura, sem espada calibre ou inventação semelhante. É preparança que vem da coisa d’alma, da coisa sem organização palavreada. É devir fantástico de ventre corajoso de cigano-perdição. 
(…)
Senhores piratas, peço um pedaço de vossa atenção. Apresente-se, capitão! 
Como ousa ficar ai de chamação? Interpela o capitão pirata. 
Tudo que temos é esta terra, senhor. Vivemos de vossa exploração. Vês aquela casinha? Ali nasci, ali mora meu coração. 
Seu coração fará moradia em minha espada, cigano! 
E a espada perfurou sua artéria até transpassar-lhe a cobertura de osso, empurrando-o para o mar, na perdição. Afundou muitos palmos de medir, até servir de saboreação. 

Senhor capitão-pirata, encontramos esta armadura na casinha do homem-cigano em mal estado de conservação. Levemos pra onde? 

Pouco importa, encarregado. Despiu seu ferro e perdeu o coração. Deve ser coisa da piração, não há vida que respire na terra sem proteção. Deixe-o de exemplo para a população. Desconfiem, desconfiem senhores. 

CASTRO