18 novembro 2014

Textos - Hipermodernidade

«Viver a abolição do tempo, viver esse momento, rápido como o "relâmpago", pelo qual dois instantes, infinitamente separados, vêm "pouco a pouco embora imediatamente" ao encontro um do outro, unindo-se como duas presenças que, pela metamorfose do desejo, se identificassem, é percorrer toda a realidade do tempo, e ao percorrê-la experimentar o tempo como espaço e lugar vazio, quer dizer, livre de acontecimentos que habitualmente o preenchem . Tempo puro, sem acontecimentos, vacância movente, distância agitada, espaço interior em devir onde os êxtases do tempo se dispõem numa simultaneidade fascinante, o que significa tudo isso?» Maurice Blanchot, "O Livro por Vir", Relógio D` Água, 1984.



'o mundo submete todo empreendimento a uma alternativa; a do sucesso ou do fracasso, da vitória ou da derrota. protesto por uma outra lógica: sou ao mesmo tempo e contraditoriamente feliz e infeliz: “conseguir” ou “fracassar” têm para mim sentidos apenas contingentes, passageiros (o que não impede que minhas dores e meus desejos sejam violentos); o que me anima surda e obstinadamente não é tático: aceito e afirmo fora do verdadeiro e do falso, fora do êxito e do malogro; estou destituído de toda finalidade, vivo conforme o acaso (a prova é que as figuras do meu discurso me vêm como lances de dados). confrontado com a aventura (aquilo que me ocorre), não saio nem vencedor, nem vencido: sou trágico.'- r. barthes. fragmentos de um discurso amoroso.


{... } de conversas esparsas e esporádicas no observatório:
'é possível encontrar uma pessoa um milhão de vezes sem nunca a consumar. viver e revivê-la sem que, a cada vez, deixe de ser uma aparição marcada por mistérios. existe um imensurável, antiesquemático, qualquer coisa de sempre novo, que move o quadro das relações. mesmo no milionésimo encontro, pode ser que essa pessoa pareça mais estranha, e escandalosamente imprevista, do que na primeira vez. e que nos faz estranhamente sozinhos, quando amamos. possivelmente, a continuação do amor, além de qualquer resignação ruminante, dependa desse suplemento de risco. sem isso, o amor acaba. mas é uma arte manhosa, menos de encontrões e promessas, que de sutis desvios e caretas, uma arte do extravio. se traz ganhos, a renovação implica uma perda. uma perda a renovar-se sempre. como não estar sozinho, se a consumação do outro é impossível? se o desejo de consumação é ilusório, senão histérico? se a sua verdade nos escapa, por definição? o amor não só implica um grau de solidão, como no amor essa fraqueza se torna uma força'.



//helen warner