17 novembro 2014

Paraninfo

“Quando a dor de não estar vivendo for maior do que o medo da mudança, a pessoa muda” (Freud)


Foi assim que iniciei em janeiro a primeira aula do curso de Administração de uma grande universidade particular. Após escrever esta frase na lousa, desci do tablado ao lado do púlpito e disse “Prefiro ficar no chão junto com vocês. Não sou mestre, ainda que tenha um mestrado. Sou alguém que dedicou mais tempo a um estudo específico que traz consigo uma disputa de poder e de manipulação. Meus amigos, bem vindos ao marketing”. Deste dia em diante, cada dia se fez de uma forma diferente. Houveram dias tristes. - “Professora, faltei muito nas suas aulas mas adoro a forma que você conversa com a gente. Estou sofrendo de síndrome do pânico e muitas vezes me fecho no meu quarto e não tenho forças para vir estudar. Meus pais não entendem esta doença e a médica só quer me dar remédios”. - “Professora, estou desempregada e tive que emprestar dinheiro com amigos para pagar a passagem do ônibus. Pego três ônibus para chegar aqui”. - “Professora, estamos vendendo bolo para pagar nossa formatura. Quer comprar?” E eu voltei para a casa com 15 fatias de bolo na mochila. “Professora, a senhora é muito linda. Meu amigo esta apaixonado”. Atônita, não consegui dizer uma palavra. Queridos, vocês não sabem o quanto vocês me fazem melhor. Às vezes tenho medo deste negócio de ser exemplo e talvez por isso prefiro dizer que estamos juntos nesta história de nos construir enquanto indivíduos, olhando uns para os outros, relutando em mudar. Quem aqui será sujeito ativo da mudança? Diversas vezes pedi desculpa por falar de psicologia e sociologia nas aulas de negócios. Diversas vezes pedi desculpas por estar mais calada. “Sofro de amor” - certa vez disse em alto e bom som. “Todo lucro é fruto da exploração humana!”. “A mídia não manipula? Vai ler Chomsky, garota”. “Nossa solidão é trágica. Conectar e desconectar”. Mas, professora, porque você se posicionou? “Amores, quem não se posiciona esta do lado do opressor”. Omissão não é para mim. Luta e delicadeza. É preciso lutar e ser delicado, ser cuidadoso. Eu chorei com a carta que recebi de vocês, seus filhos da puta. Vão me obrigar a me enfiar em um vestido e colocar salto alto, né? Deixaram para trás vinte e cinco professores e me escolheram sua paraninfa. Eu só posso pensar que alguma coisa tenho feito e que alguma mudança tenho provocado. Meu pior aluno, “Fulano, sua monografia não tem pé nem cabeça. É um problema de estruturação do pensamento. Não posso deixar você ir para a banca, me desculpe". Enfiei o dedo na cara dele e disse “Apesar de tudo, eu tenho certeza que você consegue. Eu vou te dar um caminho, mas você tem que me garantir que não desgrudará da minha mão. Se eu perceber que sou eu quem esta puxando, te abandono no meio”. Esta semana será sua banca, David. E eu estou orgulhosa. Estou orgulhosa de todos os mestres que conviveram comigo durante um ano e que receberão o diploma das minhas mãos, recitando um juramento secreto que combinamos “Procurarei viver de acordo com o que acredito e manterei o coração aberto revolucionando, não o mundo, mas o mundo ao meu redor”. Parabéns, meus colegas administradores. 

MASNAVI