14 novembro 2014

O Apanhador de Pequenezas

"Todos os dias acordo às cinco da manhã, tomo guaraná –meu pai me viciou–, vou para o escritório e lá fico descascando palavras. Quando desço, ao meio-dia, tomo um uísque e ligo a TV para ver o Chaves", contou certa vez o escritor Manoel de Barros. "É para me livrar um pouco da literatura, que dá muita angústia."  (Carta Capital) 

Sei exatamente a angústia à qual o escritor se refere. Todos os dias acordo às nove, tomo um café - até pouco tempo eu não sabia fazer café, mas Alves tinha esta áurea em torno do café, da seleção dos grãos à fazedura em pequenas quantidades, suficientes para encher apenas uma xícara, então esperávamos o tempo do fervor da água, o cantar da cafeteira italiana clássica, a escolha da xícara, o derramar do café sob a louça com tamanho empenho fazendo desaguar uma cachoeira marrom de cheiro adocicado. Havia em Alves essa perfeição na execução de pequenos fazeres. Fazer nascer manjericão, cortar delicadamente o tomate e farejar minuciosamente as verduras e legumes comprados na feira de rua. “O que vamos comer?”. “Confia em mim, Alves dizia. Suas delícias eram produzidas da alquimia exclusiva dos fazedores nascidos da terra. Era faro apurado para a transformação de pequenezas que cresciam ao olhar atento e paciente de Alves. Suas mãos habilidosas se movimentavam em lento compasso. “Você é um soldado” - certa vez lhe disse. Engano-me. “Você é um apanhador de pequenezas” -, ao encher da xícara me sento confortavelmente na poltrona arranhada pelos gatos, observando o ir e vir dos carros, ouvindo o som dos pássaros e fazendo o degusto das memórias. Nesta perdição, me esqueço dos compromissos, atraso-me para a vida de relógio. Estou sempre atrasada. 
Hoje o café foi feito tarde. Sentei-me na banqueta. Olhei fixamente para o nada. “Sinto um vazio enorme” - Alves me disse, em desespero. O que sobra de um soldado sem suas tarefas? Apanhador medroso. Covarde mesmo. Faz nascer manjericão que não sacia a fome. A fome para além do relógio. A fome para além do vício do hábito. O apanhador de pequenezas vê o chão como se fosse céu e perde as idas e vindas de luz. 


Neste 16/11 que é todo seu, olhe para cima uma única vez. 

CASTRO

"A ode explode. O bode explode.
O Etna explode. O erre explode.
A mina explode. A mitra explode.
Tudo agora e amanhã explode.
Exceto a bomba: o homem não pode.
O homem não pode. O homem não pode. O homem não pode.

O homem pode:
Soltar a vida. Fuzilar a bomba. Reinventar a ode."