16 novembro 2014

Eu que amo tanto #2

Ainda era cedo quando cheguei no Largo São Francisco. A praça em frente a universidade estava linda, toda decorada com lâmpadas que atravessavam as árvores fazendo-se teto ao céu aberto. As pessoas se amontoavam em volta da música. Havia um deck de madeira com cadeiras de praia, era um espaço democrático, inúmeros moradores de rua dançavam, catavam latinhas, falavam sozinhos. “Você esta sempre observando, né? Já notei isso”. Ela dizia isso porque percebeu meu olhar fixo no cenário. “Eu me sinto no pelourinho” - disse a ela. “Oi moça” - disse o mendigo - enquanto pisava nas latinhas que recolhia. “Posso pisar com você?” - Disse a ele - recolhendo algumas latas do chão e colocando-as em pé para o ritual. Pisei com força e reduzi a lata a um minúsculo pedaço de alumínio. O mendigo me deu um sorriso largo, com a boca cheia de espaços sem dentes e me estendeu a mão imunda. Apertei sua mão e reparei que estava inchada. “O que foi?”. “Me machuquei catando latinha". "Boa sorte" - lhe disse. Dei as costas,  sentei-me no deck e pensei: “se ela me visse cumprimentando esse homem com a mão imunda, me daria um lenço para que eu me higienizasse. Afinal, havia sempre um alarde quando a empregada negra fazia a limpeza diária de sua casa. “Não sente no assento sanitário, espere que vou limpar com água sanitária”. - Nunca entendi isso. Afinal, quando ela ia na casa dos amigos não levava consigo o desinfetante. A bunda da negra precisava ser higienizada. Entristeci. Afinal, a vida real é feita de pequenos sentir. E eu a amava. Do meu lado, duas meninas se beijavam carinhosamente. Abraçavam-se como se o dia fosse acabar ali. Como se o navio fosse partir e aquele fosse o último adeus. Eu e minha mão imunda seguimos até o pipoqueiro. Comprei pipoca doce, comi sem lavar a mão. Sentei no chão. O céu estava lindo. O centro ocupado, cheio de gente que ocupa o vácuo dos prédios, MSTS, invasão, vida, crianças brincando. Há algo de mágico na vida em família - eu pensei. Porque afinal, dormir sem você ao meu lado é sempre terrível. Você jamais estaria lá comigo. Mas juro, se estivesse, estaria de mãos dadas com você. Porque eu estava no centro da minha própria alma. Lembrei do dia que quis te apresentar as minhas amigas. Corri com o coração batendo forte “gente, apaguem as luzes e apertem o play da música Lady in Red quando ela chegar”. Impossível ser mais cafona. Outro dia, o quarto cheio de velas e a girafa segurando uma rosa vermelha. Inúmeros poemas. Inúmeras cartas. Inúmeras fotos tiradas sem que você percebesse. Eu, admiradora. Gosto de observar-te. Anda pra lá e pra cá. Recolhe o lixo. Escolhe minuciosamente o que vestir. Pinta-se com uma facilidade invejável. Não sai do celular. Sua beleza não recolhe nem quando você é apenas você, sem máscara, de pijama, acordando. “Esquece disso e segue” - disse a voz ao meu lado. Desconfio, às vezes, que a poesia que vejo nisso tudo é invenção da minha mente produtiva ou do meu coração envelhecido. 
“O que você sentiu enquanto pintava?” - perguntou-me a terapeuta. “Um amor imenso. Achei mesmo que pudesse ser parte da cura”. “Como foi recebido seu presente?”. “Não sei. Não pude dar em mãos. Recebi uma mensagem dizendo que tinha sido especial. Sabe, acho que o encontro… Aquele encontro que o outro vai com você na mesma dimensão do sentir… Não sei te explicar, mas achei que aquilo fosse… tantas vezes achei que aquilo que estava fazendo fosse capaz de materializar… 
A última vez que vi a costureira, ela estava chorando e me contanto o quanto a moça fez mal a ela. Corri na padaria e comprei-lhe um sorvete de chocolate. Fazia muito calor. “Tome, vai lhe fazer bem”. - Você é muito carinhosa. Um mês depois ela estava casada com um rapaz que tinha três filhos. Eles se conheceram e depois de uma semana resolveram morar juntos com as 4 crianças. Três dele e um dela. Ela me disse que algo aconteceu no momento que se conheceram. Hoje eles fazem seis meses de casados. 

Caminhei por muitas horas sozinha nas largas ruas do centro. Meu silêncio era solitário. Na minha mente escrevi milhares de poemas que se perderam ao longo do dia. Subindo a rua no sentido do metrô, pensei que eu deveria mesmo escrever um livro. 

Cinco amigas negras com seus blacks lindos e gigantes, me pararam no meio do caminho. "Hoje você é a cota". Eu ri. 
"Estamos juntas há três anos". Elas são duas artistas lindas e fofas. Cospem amor. 


No fim, só pude me recordar do diálogo de um elevador de um prédio no centro relatado pela filosofa: 'eu como de tudo, meus amigos até dizem que eu sou aquele pássaro que enfia a cabeça na terra, sabe?, a capivara’. 

MASNAVI