13 novembro 2014

Como vai você?



       Uma viagem de mil séculos invade minha cabeça na tentativa de responder a esta pergunta da forma mais coerente possível. A vida real não é tão dicotômica. Pensei em responder dizendo que sonhei que estava passando férias em Minas Gerais, em um descampado no alto de um morro. Estávamos em uma espécie de trailer antigo, porém funcional. Ao lado havia uma casa simplória com uma pequena cozinha e um banheiro. Lembro-me da torneira. Eu sempre corria lá para lavar as mãos. Estávamos em família, como na infância. Não, espera. Na infância não viajávamos todos juntos. É por isso que fica difícil responder como vamos. Porque de alguma maneira as lembranças me levavam para estas férias em família? Como se tivessem, de fato, ocorrido. A questão é que o lugar era assustador, escuro, cheio de brumas, animais do mato. Eu corria em volta do trailer com um pedaço de pau me achando um explorador de tesouros. Isso me levou ao dia que precede o sonho. Acordei cedo e fui na Santa Efigênia brigar com o japonês que me vendeu um tablet Ching Ling travado. Eu queria dar com o tablet na cabeça do japonês. O senhor mora aqui há trinta anos e ainda fala “tlabete”, “é segulo”? Meu senhor, eu sou professora e só comprei esta engenhoca para evitar de transitar com meu Macbook no metrô, no ônibus, enfim, o senhor deve saber que nós professores ganhamos muito mal|! “Compleendo, compleendo. Também sou plofessor de matemática”. Esta é a hora que o explorador guarda seu pedaço de pau para ouvir o meliante. “Vou tlocar para a senhora” - disse o japonês me entregando um banquinho para que eu me sentasse enquanto aguardava. Fiquei lá, sentada na barraquinha Ching Ling sozinha. Os clientes se aproximavam e perguntavam sobre os produtos. Outros comerciantes perguntavam “cadê o senhor Chon?” (que ele me perdoe a grafia, afinal poderia ser Chin, Chon, Chan, whatever). Nisso, eu desatei a conversar com os vendedores das outras barraquinhas “você é casada? tem filhos? trabalha aqui há quanto tempo? onde você mora? o preço do mercado está nas alturas, né menina?”. “Plonto! Tlabete plonto”. Sai do no.280 da Santa Efigênia com meu tablet destravado e funcionando, feliz da vida. Não preciso dizer que ao chegar em casa percebi que um dos cabos que eu havia comprado era incompatível com meu projetor. Volto a Santa Efigênia, no.280. “Bom dia, professora!”, “Oi, professora!”, alguns gritos até chegar na quadra 4 do homem que me ensinou tudo sobre cabos e me vendeu o cabo errado. “Oi, não sei se o senhor se lembra de mim…” - “Oi professora”. “Desculpe, não sei se é possível realizar a troca dos cabos que comprei esta semana. Eu trouxe o cabo, mas não está mais na caixa original porque eu tenho (recém adquirida) uma compulsão por reciclagem, então quando chego em casa com papel, corro para as lixeiras. O senhor me desculpe, este hábito é recente e tornou-se impulsivo, acho que é misturado com paixão sabe? Nisso vejo que o homem está lá segurando o cabo há alguns minutos. “Me desculpe, o senhor tem carregador de celular para carro?” - “Sim, vários. Qual é o seu modelo?” - “Ai meu Deus, eu não sei. Eu ganhei este celular na promoção da Claro e ele é totalmente preto. Eis que isso o torna invisível. Perdi no carro há algumas horas”. Bom, o caçador de tesouros encontrou alguns. O senhor Chen, Chan, Chun, o homem dos cabos, a vendedora tagarela que não quer ter filhos enquanto o PIB não melhorar e o gorducho que pediu que eu lhe pagasse um sanduíche na porta da loja. “O pão tem que ser integral, senhor”. Como você está? Sinto como se estivesse ainda caminhando pelo centro. O viaduto do chá visto por baixo, o grafite que dizia “Todos os jornalistas da Veja e da Folha chupam piroca”. Achei a tipografia sensacional. Não fotografei, afinal meu novo celular invisível estava camuflado por ai. “Esta tela não é negra, é preta” - dizia o artista plástico. Eu já imaginei um discurso racial sendo emendado a sua explicação. “Negro é a cor do infinito. Camadas e camadas de infinito. Não podemos ver toda sua extensão. Preto é visível, estático. Vê? Minha tela é P-R-E-T-A”. “Então, senhor! Meu celular é N-E-G-R-O”. Passei a acreditar que este celular mágico aparece e desaparece quando quer. Mas qual era a pergunta mesmo? Como vou? Vou a pé, vou de carro, vou sonhando e chorando e sorrindo. Imóvel e rodando. Segurando ondas, literalmente. Sonhei que estava segurando uma enchente na favela. Sentada em uma cadeira de praia, eu dizia “Calma, gente! Vamos aproveitar a água para nadar”. Sai correndo e peguei um óculos de mergulho, até ver minha bicicleta no diluvio para começar a me preocupar de verdade. “ai, minha bike não!”. “Esquece isso, esquece da bike, esquece da prova, esquece da fulana, esquece…” Jura mesmo que você acredita em esquecer? Eu só esqueço minhas chaves, o tempo todo. Não que eu fique preocupada com tudo ou seja uma controladora, mas como não observar as próprias memórias como releitura de uma obra que sempre muda ao longo do tempo, aberta a novas interpretações, novas leituras dos personagens. “Filha, será que você pode ir a uma sessão na minha terapia?”. Desatei a chorar. Me senti tão invadida. “Soldado, no. 31, favor comparecer a Diretoria”. “Não posso”. “Você tem até quarta-feira para dar uma resposta”. “Não posso”. Sabe, talvez o tom da minha voz seja negro de vez em quando. Eu sou um explorador de florestas medroso, armado de um pedaço de pau. Armado de um pedaço de pai. Eu sou um explorador de florestas medroso que não sabe correr, nem se esconder. Mas que caminha lento sem olhar para trás, sem perceber que todos os monstros estão por de trás das árvores. 

Masnavi