14 outubro 2014

Recital

Respiro e persigo
uma luz de outras vidas.

E ainda que as janelas se fechem, meu pai
É certo que amanhece. 


Hilda Hilst

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RECITAL 

Quer saber do meu sexo? Da minha volúpia transcendente? Da vertigem voraz que quer te engolir em silêncio? Ei de saborear o teu corpo macio calmamente, como um rio que deságua na fonte, molhando a grama sagrada soturna, inquieta, sedenta. Diante de lagartas que vão abrindo asas enormes, voando, voando, no dia que amanhece e escurece, sem tempo. Nós somos o tempo aqui, agora. Estamos em dança com um só corpo, e eu te peço “acalma-te, acalma-te”. Deixa teus olhos fecharem e os fluidos escorrerem das tuas coxas, suavemente, lavando-lhe os pés. Ei de lamber-te os dedos, saciando-me das gotas que brotam dos montes voluptuosos, abaixo do vão. Seremos todas as respostas não ditas, de todos os entes, de todos os ceús e infernos que vivemos então. Teremos a coragem de gozar e grunhir, no tom desacordado, um manta intocado, uma prece, um hino, um quinhão. Não haverá mão, boca, cu, boceta. Serão portas e janelas fecundas de inspiração. Portais para o ventre, o feto nascido, semeado e cuspido, concebido entre beijos alagados, desesperados, como dedos fincados no coração. Seremos a comida, a sede, o pasto, um alazão. Haverá um silêncio enorme nesta prece, para cada mordida, para cada lambida, que afasta as pernas pedindo perdão. Os olhos se cerram, floresce o cheiro, a primavera sagrada, é a vulva molhada aguardando o talo, a tríade, a saciedade do tigre que come a carne, que mata a presa, que se senta e contempla o gozo, admirando o cenário de ressurreição. Então serás o altar, uma Ode ao sexo, uma crucificação. Seu prazer será sagrado como gemidos multitons que ecoam de um porão. Sou também a chave que te abre “acalma-te, acalma-te”, não há mais o tempo. Nos tornamos divinos. Maiores. Podes gozar em paz, meu amor. Não morreras nas minhas mãos. 

CASTRO