22 outubro 2014

"Existo sempre que você pensar em nós"


So Long, Marianne
Come over to the window, my little darling,
I'd like to try to read your palm.
I used to think I was some kind of Gypsy boy
before I let you take me home.
Now so long, Marianne, it's time that we began
to laugh and cry and cry and laugh about it all again.
(Leonard Cohen)

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Calma, calma. Escuta. 
Você esta enlouquecendo. Aqui não tem nada. 
Tem a névoa. E na névoa tem o cachorro. Ele esta aqui. 
Jack, Jack. 
Sinto seu cheiro, Jack. 
Você pode me deixar um pouco sozinha, por favor? 

Sei que você também esta ai. Saia da névoa e vem olhar na minha cara. Quero sentir sua vulva cheia de pêlos escorrendo-me nos dedos. Você sorri. Eu posso morrer. O silêncio é um pacto. Calar vicissitudes desnecessárias. Quem, como, porquê. Estamos munidas. Temos buracos e fendas intocadas. Deliciosas cavernas escondidas. 

Eu te acho. 
Só eu te acho, bicho-do-mato. 
Bicho-de-olho-triste. 
Bicho-de-risada-gostosa e larga. 

Escavo-te a boca chupando a língua, adentrando no teu corpo pelas paredes. Sei do formato do teu corpo atlético. Amém, a tua bunda. Bicho-largo. Bicho-quente. Bicho, corre. Se eu te meter, sabe que não há fundo, nem camada espessa que me separe de ti. Cu, boca e boceta são simples passagens para o sexo das almas antropofágicas, que se duplicam, se interditam e se transformam fazendo amor. Geme, bicho. Chora. Goza. Somos lobos que correm soltos pelas montanhas de cumes cinzentos. Colagens geométricas. Cortes e recortes sobrepostos. Recortados, amassados, reimpressos, nossos corpos decompondo-se na mata. Qual a tua última palavra? Boceta. Como você é retardada. 

Eu te achei, bicho. 
Correste louco pela mata. Bicho-do-mato. 
Qual teu nome? 
Jack, Jack. 
Kerouac, Miller, Deleuze, Castanedas. Vá pra puta que pariu. 
Vem aqui, sua putinha. Somos ratos de esgoto. Somos bichos rastejantes atrás de sexo. Amanhã não somos nada. Quem será você amanhã? Velha, solitária? Bicho-velho-rastejante. Vai morrer sem existir? Será que também não sou um corpo? 

Abra a janela. Gosto de transar com a luz do dia invadindo suas paredes brancas. Apoio a palma da mão no chão enquanto como teu cu. Você, bicho-de-quatro, é graciosidade allongé. Balé de pernas musculosas-bronzeadas. Eu sou piroca cyberskin. Essa vidinha ordinária é quase uma comédia íntima. Porque no fim do dia, bicho-pára. Aguarda afago e cama quente. 

Boa noite. 
Bicho-morto.

MASNAVI