09 outubro 2014

A pele que habito

Não há qualquer evidência, por mais sucinta que seja
que será garantido o sentido correto, 
o caminho mais limpo,
A dor mais concreta 
O sorriso menos amarelado 
A volúpia mais desejosa
A utopia mais cartesiana
A unidade do corpo
A fidelidade da mente 
O uníssono da voz 
O entrelaçar dos dedos na pressão mais equilibrada
O encantamento cotidiano 
O devorador de paixões fantasmagóricas 
A travesti dos poderes 
O signo da comunicação 
As vestes que cubram, 
Os véus que despenquem 
A vida para o consumo
O tédio e o ócio aceitos 
O amor menos definido 
A loucura mais perdoada
O inquieto menos produtivo 
A cegueira menos egoísta
O olhar mais misturado aos invisíveis 
A vida com menos espetáculo
As palavras com mais ternura 
O perdão para a própria alma
A gratidão pelo bolo 
A gratidão pelo sono. 
A gratidão pelas flores. 
A suave companhia da solidão, 
Suas lágrimas abençoadas de vida
A fé manifesta 
O canto mais lírico 
O Deus não tão distante e mais sujo 
A indiferença escrotada
O manifesto da pequenez
O perdão ao desespero 
O abraço para a dor
O abraço para a memória 
O afrouxar de mãos atadas à paternidades 
A individuação 
O estar no mundo perdido
Achar-se nos outros.
Em todos os outros.
Nos outros sem nome.
Nos outros em crise.
Nos outros maltrapilhos.
Nos outros que são o contraste de nós. 
E portanto são nós mesmo, na sombra. 
Sem covardia.
A renúncia aos direitos adquiridos. 
A desapropriação. 
A luta por princípios.
A ética sem câmeras. 
O abismo moral
O cheiro da avó, no leito de morte
O olhar da personificação da culpa, no leito de morte.
O latido do primeiro cachorro.
O descobrir do primeiro caixão. 
O tocar na terra, sendo terra. 
Tratar de semear a vida
Não deixar de respirar um segundo
Não deixar escapar um só rosto
Lavar-se de lágrimas e fruição. 
Do gozo à satisfação 
Sem receita de passos
Sem precipitação 
O advento de si
É o novo nascimento
E a vida 

É ressurreição. 

CASTRO