26 outubro 2014

Trovoa - A montanha silenciosa
















"e se abraçar com força descomunal
até que os braços queiram arrebentar
toda a defesa que hoje possa existir
e por acaso queira nos afastar
esse momento tão pequeno e gentil
e a beleza que ele pode abrigar
querida nunca mais se deixe esquecer
onde nasce e mora todo o amor" - Metá Metá

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Habita-se
No cume
Um bicho
Sem nome

Raposa,
Lobo,
Coelho,
Índia

Olho,
Orelha,
Focinho

Cio,
Patas
Solidão.

Sobe o cume
com destreza
gingado de bicho
na natureza

Solidão.

Posso ouvir seu uivo.
Seu sorrir de hiena.
Bicho mutante.
Sem nome.

E chora toda noite a sua dor.

MASNAVI 

Ao 26 que se cala

"Um primeiro grito desencadeia todos os outros, o primeiro grito ao nascer desencadeia uma vida, se eu gritasse acordaria milhares de seres gritantes..."

Vê, meu amor, vê como por medo já estou organizando, vê como ainda não consigo mexer nesses elementos primários do laboratório sem logo querer organizar a esperança. É que por enquanto a metamorfose de mim em mim mesma não faz nenhum sentido. É uma metamorfose em que perco tudo o que eu tinha, e o que eu tinha era eu - só tenho o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de pé diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender, o material do mundo me assusta, com os seus planetas e baratas. Eu, que antes vivera de palavras de caridade ou orgulho ou de qualquer coisa. Mas que abismo entre a palavra e o que ela tentava, que abismo entre a palavra amor e o amor que não tem sequer sentido humano - porque - porque amor é a matéria viva. Amor é a matéria viva?

G.H.

Clarice

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E sempre haverá músicas cafonas para nos fazer sonhar com ideário de amar poeticamente. 

Masnavi

Sob uma estrela pequenina

de Wislawa Szymborska:

Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpe as gentes nas estações pelo sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes devo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não poder estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgue má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas, e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.

22 outubro 2014

"Existo sempre que você pensar em nós"


So Long, Marianne
Come over to the window, my little darling,
I'd like to try to read your palm.
I used to think I was some kind of Gypsy boy
before I let you take me home.
Now so long, Marianne, it's time that we began
to laugh and cry and cry and laugh about it all again.
(Leonard Cohen)

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Calma, calma. Escuta. 
Você esta enlouquecendo. Aqui não tem nada. 
Tem a névoa. E na névoa tem o cachorro. Ele esta aqui. 
Jack, Jack. 
Sinto seu cheiro, Jack. 
Você pode me deixar um pouco sozinha, por favor? 

Sei que você também esta ai. Saia da névoa e vem olhar na minha cara. Quero sentir sua vulva cheia de pêlos escorrendo-me nos dedos. Você sorri. Eu posso morrer. O silêncio é um pacto. Calar vicissitudes desnecessárias. Quem, como, porquê. Estamos munidas. Temos buracos e fendas intocadas. Deliciosas cavernas escondidas. 

Eu te acho. 
Só eu te acho, bicho-do-mato. 
Bicho-de-olho-triste. 
Bicho-de-risada-gostosa e larga. 

Escavo-te a boca chupando a língua, adentrando no teu corpo pelas paredes. Sei do formato do teu corpo atlético. Amém, a tua bunda. Bicho-largo. Bicho-quente. Bicho, corre. Se eu te meter, sabe que não há fundo, nem camada espessa que me separe de ti. Cu, boca e boceta são simples passagens para o sexo das almas antropofágicas, que se duplicam, se interditam e se transformam fazendo amor. Geme, bicho. Chora. Goza. Somos lobos que correm soltos pelas montanhas de cumes cinzentos. Colagens geométricas. Cortes e recortes sobrepostos. Recortados, amassados, reimpressos, nossos corpos decompondo-se na mata. Qual a tua última palavra? Boceta. Como você é retardada. 

Eu te achei, bicho. 
Correste louco pela mata. Bicho-do-mato. 
Qual teu nome? 
Jack, Jack. 
Kerouac, Miller, Deleuze, Castanedas. Vá pra puta que pariu. 
Vem aqui, sua putinha. Somos ratos de esgoto. Somos bichos rastejantes atrás de sexo. Amanhã não somos nada. Quem será você amanhã? Velha, solitária? Bicho-velho-rastejante. Vai morrer sem existir? Será que também não sou um corpo? 

Abra a janela. Gosto de transar com a luz do dia invadindo suas paredes brancas. Apoio a palma da mão no chão enquanto como teu cu. Você, bicho-de-quatro, é graciosidade allongé. Balé de pernas musculosas-bronzeadas. Eu sou piroca cyberskin. Essa vidinha ordinária é quase uma comédia íntima. Porque no fim do dia, bicho-pára. Aguarda afago e cama quente. 

Boa noite. 
Bicho-morto.

MASNAVI

17 outubro 2014

A vida que vale a pena ser vivida

celebra-se o tempo, no dia de hoje (1+7)
no vazio à vácuo, da distância-tempo
porque hoje também celebra-se a distância.
hoje o canto é para além. 
hoje a voz é silenciosa.
hoje o desejo é primitivo
bicho enjaulado, 

instintivo. 

E a única vida que vale a pena ser vivida
reside no pulso contrastante de existir
amor, além-dos-poemas de amor. 
compreensão, além-de-dentro de-si.
encorajar. ter coragem. acreditar. 


MASNAVI

14 outubro 2014

Recital

Respiro e persigo
uma luz de outras vidas.

E ainda que as janelas se fechem, meu pai
É certo que amanhece. 


Hilda Hilst

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RECITAL 

Quer saber do meu sexo? Da minha volúpia transcendente? Da vertigem voraz que quer te engolir em silêncio? Ei de saborear o teu corpo macio calmamente, como um rio que deságua na fonte, molhando a grama sagrada soturna, inquieta, sedenta. Diante de lagartas que vão abrindo asas enormes, voando, voando, no dia que amanhece e escurece, sem tempo. Nós somos o tempo aqui, agora. Estamos em dança com um só corpo, e eu te peço “acalma-te, acalma-te”. Deixa teus olhos fecharem e os fluidos escorrerem das tuas coxas, suavemente, lavando-lhe os pés. Ei de lamber-te os dedos, saciando-me das gotas que brotam dos montes voluptuosos, abaixo do vão. Seremos todas as respostas não ditas, de todos os entes, de todos os ceús e infernos que vivemos então. Teremos a coragem de gozar e grunhir, no tom desacordado, um manta intocado, uma prece, um hino, um quinhão. Não haverá mão, boca, cu, boceta. Serão portas e janelas fecundas de inspiração. Portais para o ventre, o feto nascido, semeado e cuspido, concebido entre beijos alagados, desesperados, como dedos fincados no coração. Seremos a comida, a sede, o pasto, um alazão. Haverá um silêncio enorme nesta prece, para cada mordida, para cada lambida, que afasta as pernas pedindo perdão. Os olhos se cerram, floresce o cheiro, a primavera sagrada, é a vulva molhada aguardando o talo, a tríade, a saciedade do tigre que come a carne, que mata a presa, que se senta e contempla o gozo, admirando o cenário de ressurreição. Então serás o altar, uma Ode ao sexo, uma crucificação. Seu prazer será sagrado como gemidos multitons que ecoam de um porão. Sou também a chave que te abre “acalma-te, acalma-te”, não há mais o tempo. Nos tornamos divinos. Maiores. Podes gozar em paz, meu amor. Não morreras nas minhas mãos. 

CASTRO

Tu não te moves de ti


Não há descanso na poesia
Assim como não há chave na porta 
E grunhido de pássaros pela manhã 

O silêncio leva a alma 
E nada me move de mim. 

Aqui sou em silêncio
Uma espera, um olhar atento 
Uma gratidão enorme por estar em mim

Estou atravessada, encantada
estirada em sonhos e mais nada 
Ancorada na lírica mais genuína da fonte 
fincada nas nuvens, sem chão, sem pegada. 

Tu não te moves de ti
E tua beleza brota fácil da fonte,
a fonte inesgotável de ti 

Olhe cá, teu espelho 
todo amor que surge por ti, 
de ti 
E verás que tu não te moves de ti

Passará a primavera 
e tuas flores desabrocharão 

Olhe cá, teu espelho
todo amor que se transformará em si 
E verás que acabar-se-a a espera 
Ancorada na lírica mais genuína da fonte 
do amor pelo que há em ti. 

Amor por tudo que não moves de ti. 

CASTRO

13 outubro 2014

O cenário do penhasco

Não há borda,
Nem dá pé,
No fundo d’água
que reflete a fé

Amor das minhas vidas 
Diante de ti, 
O vento,
se esvaindo, esvaindo
Esva-Indo. 
Me tornei um grão de mostarda.
Infértil, impróprio. 

Cala-frio. 

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As árvores continuam dançando. 
O sol continua brilhando. 
E a poesia, vai morrendo. 
infértil, imprópria, sem fé. 

MASNAVI

09 outubro 2014

A pele que habito

Não há qualquer evidência, por mais sucinta que seja
que será garantido o sentido correto, 
o caminho mais limpo,
A dor mais concreta 
O sorriso menos amarelado 
A volúpia mais desejosa
A utopia mais cartesiana
A unidade do corpo
A fidelidade da mente 
O uníssono da voz 
O entrelaçar dos dedos na pressão mais equilibrada
O encantamento cotidiano 
O devorador de paixões fantasmagóricas 
A travesti dos poderes 
O signo da comunicação 
As vestes que cubram, 
Os véus que despenquem 
A vida para o consumo
O tédio e o ócio aceitos 
O amor menos definido 
A loucura mais perdoada
O inquieto menos produtivo 
A cegueira menos egoísta
O olhar mais misturado aos invisíveis 
A vida com menos espetáculo
As palavras com mais ternura 
O perdão para a própria alma
A gratidão pelo bolo 
A gratidão pelo sono. 
A gratidão pelas flores. 
A suave companhia da solidão, 
Suas lágrimas abençoadas de vida
A fé manifesta 
O canto mais lírico 
O Deus não tão distante e mais sujo 
A indiferença escrotada
O manifesto da pequenez
O perdão ao desespero 
O abraço para a dor
O abraço para a memória 
O afrouxar de mãos atadas à paternidades 
A individuação 
O estar no mundo perdido
Achar-se nos outros.
Em todos os outros.
Nos outros sem nome.
Nos outros em crise.
Nos outros maltrapilhos.
Nos outros que são o contraste de nós. 
E portanto são nós mesmo, na sombra. 
Sem covardia.
A renúncia aos direitos adquiridos. 
A desapropriação. 
A luta por princípios.
A ética sem câmeras. 
O abismo moral
O cheiro da avó, no leito de morte
O olhar da personificação da culpa, no leito de morte.
O latido do primeiro cachorro.
O descobrir do primeiro caixão. 
O tocar na terra, sendo terra. 
Tratar de semear a vida
Não deixar de respirar um segundo
Não deixar escapar um só rosto
Lavar-se de lágrimas e fruição. 
Do gozo à satisfação 
Sem receita de passos
Sem precipitação 
O advento de si
É o novo nascimento
E a vida 

É ressurreição. 

CASTRO