02 julho 2014

#29 Macatuba. O amor e outros sonhos.

Com muito gosto recebo um convite da escola municipal de Macatuba para coordenar um projeto educacional voltado a crianças em início de aprendizagem. Não que eu tenha qualquer experiência pedagógica, mas como você bem sabe, sou muito próxima do universo infantil pelo forte interesse nesta fase da vida. Chegar na sua cidade, pequena e bucólica, imaginando como seria atravessar o portão da sua casa de paredes bege e sentir o cheiro da comida sendo feita, do cachorro latindo, das árvores dançando e do ar cortante da tua história solitária, seria assustador e confortável ao mesmo tempo. Um reencontro com o passado. Meu, seu. Olhar nos fundo dos olhos da sua avó e atravessá-la. Atravessar sua mãe. Atravessar seu pai. Fazer com que os pássaros cantem mais alto a grande chegada. Posso até ouvir o coaxar dos sapos misturado ao canto de cigarras. Somos bichos de novo. Livres. Em paz. Cruzamos a linha do inconsciente, meu amor. 

Na verdade, nem cheguei perto do sítio ou da casa. Te vi de longe. Parecia uma menina assustada. Vestia um jeans antigo e uma camiseta um pouco suja de terra. Se bem te conheço, estava correndo com o cachorro pela mata. Foi muito rápido a troca de olhares. Vi no fundo dos teus olhos um mundo desabando em mar. Uma fúria infindável de afetos e tempestades de raiva. Indômita. O teu animal é meu conhecido. A tua humanidade é dolorosa demais. E a tua alegria é medo. 
Se pudesse te dava um abraço daqueles de parar o tempo. Cheirava seus cabelos e sorria para tudo de lindo que ainda há pela frente. 
Te vejo. Você abaixa os olhos, não me encara. Fica ali parada sem conseguir me olhar. Posso ver-te uivando, sem encarar-me. Mantemos uma certa distância, quase um abismo. Estendo minha mão. Você corre. Corre. Chega no rio, se abaixa, toca a água com a língua feito um cão. Você é um cão. Um cão fiel preso ao caos da eterna corrida. Você sabe correr. 

Castro.