29 julho 2014

Da brevidade da vida

Caderno 3

Caminhar nesta longa jornada
Diante de si e mais nada
Sem vestígio de mira ou parada
Estancando o peito, atirada.

Devo partir na manhã
Quando o primeiro pássaro
se fizer ouvir.
Diante de mim, o destino
A minha sombra, o perigo.

E não haverá mágica capaz de cessar
O movimento da vida.

CASTRO

25 julho 2014

Do amor possível

Caderno 02

Querida, cubra teus olhos,
Venha me ver em mistério
O que puderes tocar é teu
E é tudo que quero.

Posso ouvir-te cantar,
a fantasia que espero
Ver nascer no poente
nosso simplório castelo;

Ver surgir pontes imaginárias
Que levam a todo incerto
O que puderes levar,
Deixe.
Você é tudo que quero.

CASTRO


Da felicidade possível

- Caderno 01

Renascer sob a luz da manhã
Em crescente tons de amarelo
Aguçar os sentidos do corpo
Sob o olhar do mistério.

Entardecer suavemente na terra
Deixando-se-ir brevemente,
Bravamente.

Para florescer amor ao anoitecer
Em um toque tranquilo de inverno
O devir de morrer em perdição
E sobreviver a suave entrega

Eis-me aqui, querida vida.
Quero-lhe acariciar os cabelos
Quero gerir teus frutos sagrados
Quero estar aqui. E aqui.

CASTRO


18 julho 2014

#30 - "HER" - O último poema de despedida.

"Samantha, por que você vai embora?
- É como se eu tivesse lendo um livro e é um livro que eu amo profundamente. Mas eu o estou lendo lentamente agora. Então as palavras estão espaçadas, e os espaços entre elas são quase infinitos... E eu te amo tanto. Mas é aqui que estou agora. Por mais que eu queira, não posso mais viver no seu livro."

02 julho 2014

#29 Macatuba. O amor e outros sonhos.

Com muito gosto recebo um convite da escola municipal de Macatuba para coordenar um projeto educacional voltado a crianças em início de aprendizagem. Não que eu tenha qualquer experiência pedagógica, mas como você bem sabe, sou muito próxima do universo infantil pelo forte interesse nesta fase da vida. Chegar na sua cidade, pequena e bucólica, imaginando como seria atravessar o portão da sua casa de paredes bege e sentir o cheiro da comida sendo feita, do cachorro latindo, das árvores dançando e do ar cortante da tua história solitária, seria assustador e confortável ao mesmo tempo. Um reencontro com o passado. Meu, seu. Olhar nos fundo dos olhos da sua avó e atravessá-la. Atravessar sua mãe. Atravessar seu pai. Fazer com que os pássaros cantem mais alto a grande chegada. Posso até ouvir o coaxar dos sapos misturado ao canto de cigarras. Somos bichos de novo. Livres. Em paz. Cruzamos a linha do inconsciente, meu amor. 

Na verdade, nem cheguei perto do sítio ou da casa. Te vi de longe. Parecia uma menina assustada. Vestia um jeans antigo e uma camiseta um pouco suja de terra. Se bem te conheço, estava correndo com o cachorro pela mata. Foi muito rápido a troca de olhares. Vi no fundo dos teus olhos um mundo desabando em mar. Uma fúria infindável de afetos e tempestades de raiva. Indômita. O teu animal é meu conhecido. A tua humanidade é dolorosa demais. E a tua alegria é medo. 
Se pudesse te dava um abraço daqueles de parar o tempo. Cheirava seus cabelos e sorria para tudo de lindo que ainda há pela frente. 
Te vejo. Você abaixa os olhos, não me encara. Fica ali parada sem conseguir me olhar. Posso ver-te uivando, sem encarar-me. Mantemos uma certa distância, quase um abismo. Estendo minha mão. Você corre. Corre. Chega no rio, se abaixa, toca a água com a língua feito um cão. Você é um cão. Um cão fiel preso ao caos da eterna corrida. Você sabe correr. 

Castro.