09 junho 2014

#25

"Eu não olho mais nos olhos da mulher que tenho em meus braços, mas os atravesso nadando, cabeça, braços e pernas por inteiro, e vejo que por detrás das órbitas desses olhos se estende um mundo inexplorado, mundo de coisas futuras, e desse mundo toda lógica está ausente (...) Quebrei o muro (...) meus olhos não me servem para nada, pois só me remetem à imagem do conhecido. Meu corpo inteiro deve se tornar raio perpétuo de luz, movendo-se a uma velocidade sempre maior, sem descanso, sem volta, sem fraqueza (...) Selo então meus ouvidos, meus olhos, meus lábios".
Henry Miller - Trópico de Capricórnio

O meu corpo flutua no mar quando fecho os olhos e sinto a água inundar braços, pernas, cabelos, a nudez livre que corremos para agarrar quando o mar nos chamou para um abraço. No teu colo, não era corpo, nem mulher, nem materialidades, era o vento, as ondas, a voz que pedia para que você me segurasse forte, era o medo se descontruindo a cada onda que nos rebatia e nos transformava também em onda. Não sou a mulher que ama silenciosamente a cada dia que nasce e renasce ao longo da existência que chamamos tempo. Não sou a mulher que dança, que tem deitado na grama verde ao som de ópera refastelando-se de si ao sol. Não sou a mulher. Não sou o homem. Sou a voz que te calou toda vida. Sou o fogo que derreteu tuas correntes. Sou o campo de flores que te chamou para correr. Sou o cão que te olha no fronte e te leva ao mais profundo inconsciente. E ainda assim não sou tua. Não sou minha. Porque somos todos esses fenômenos que nos ocorre quando estamos de mãos dadas enfrentando nossos mundos gigantes. Somos o devir sagrado e a resposta para tudo que você tem procurado nos livros, da tua solidão absurda, na tua incoerência e no teu uivo que bate na minha janela ou no sonho em que você traz sua própria avó para falar comigo.
Somos uma. E não somos.
E quando te reconheci, sabia que era a mulher da minha vida. De todas as minhas vidas.

CASTRO