14 junho 2014

#28 Love is Now - O ato amoroso, o espelho e à morte.

Basta eu acordar, diz Foucault, que não posso escapar deste lugar, o meu corpo. Posso me mexer, andar por aí, mas não posso me deslocar sem ele. Posso ir até o fim do mundo, posso me encolher debaixo das cobertas, mas o corpo sempre estará onde eu estou. Ele está aqui, irreparavelmente: não está nunca em outro lugar. Meu corpo é o contrário de uma utopia. Todos os dias, continua Foucault, eu me vejo no espelho: rosto magro, costas curvadas, olhos míopes, nenhum cabelo mais... Verdadeiramente, nada bonito. Meu corpo é uma jaula desagradável. É através de suas grades que eu vou falar, olhar, ser visto. É o lugar a que estou condenado sem recurso.
É possível que contra esse corpo tenham nascido todas as utopias, dele nasce a utopia original - a de um corpo incorporal: o país das fadas, dos elfos, dos gênios, onde as feridas se curam imediatamente, onde caímos de uma montanha sem nos machucar, onde podemos ficar invisíveis.
Há outra utopia dedicada a desfazer o corpo é o país dos mortos. A múmia é o corpo utópico que desafia o tempo. Há as pinturas e esculturas dos túmulos, que prolongam uma juventude que nunca vai passar, que será eterna. Meu corpo se torna sólido como uma coisa, e eterno como um deus.
A outra, a maior utopia criada contra o corpo é o grande mito da alma, que funciona maravilhosamente dentro do meu corpo, mas escapa dele. É bela, pura, branca, ao contrário do meu corpo. Durará para sempre. É meu corpo luminoso, purificado.
Assim, pela mágica dessas utopias, meu corpo pesado e feio desaparece magicamente. Recebo-o de volta fulgurante e perpétuo.
Mas meu corpo, nele mesmo, seus recursos próprios de fantástico. Tem lugares sem-lugar. Tem seus lugares obscuros e praias luminosas. Minha cabeça é uma estranha caverna, com duas aberturas, meus olhos. E, se as coisas entram na minha cabeça, ficam ao mesmo tempo fora delas.
Corpo incompreensível, penetrável e opaco, aberto e fechado: corpo utópico. Absolutamente visível - porque sei o que é ser visto e ver os outros. Mas esse corpo é também tomado por uma certa invisibilidade: minha nuca, por exemplo. Minhas costas: conheço seus movimentos, sua posição, mas não as vejo. Corpo que é um fantasma, que só posso ver pelo truque, pela miragem de um espelho.
Esse corpo não é uma coisa: anda, mexe, quer, se deixa atravessar sem resistências por minhas intenções. Só quando estou doente –dor de estômago, febre - ele se torna coisa, opaca, independente de mim.
Não, o corpo não precisa de fadas e almas para ser utópico, visível e invisível, transparente e concreto. Para que eu seja utopia, preciso apenas ser... um corpo. As utopias não apagam o corpo: nasceram dele, para só depois, talvez, voltarem-se contra ele.
Uma coisa, entretanto, é certa: o corpo humano é o ator principal de todas as utopias. O sonho de um corpo imenso, o mito dos gigantes, de Prometeu, é uma utopia. O sonho de voar também.
O corpo é também ator utópico quando se pensa nas máscaras, na tatuagem, na maquiagem. Não se trata, aqui, propriamente, de adquirir um outro corpo, mais bonito ou reconhecível.
Trata-se de fazer o corpo entrar em comunicação com poderes secretos, forças invisíveis. Uma linguagem enigmática e sagrada se deposita sobre o corpo, chamando sobre ele o poder de um deus, a força surda do sagrado, a vivacidade do desejo. Fazem do corpo o fragmento de um espaço imaginário, que entra em comunicação com o universo dos outros, dos deuses, das pessoas que queremos seduzir.
O corpo é arrancado de seu espaço próprio e arremessado a um outro espaço. As vestimentas religiosas, por exemplo, fazem o indivíduo entrar no espaço cercado do sagrado, ou na comunhão da sociedade. Tudo o que toca no corpo, uniformes, diademas, faz florescerem as utopias internas do corpo.
E a carne nela mesma pode ser também utópica. Faz o corpo voltar-se contra si: o outro mundo, o contra-mundo, penetra nesse corpo, que se torna produto de seus fantasmas: o corpo de um dançarino, por exemplo, é um corpo dilatado pelo espaço – espaço que lhe é interior e exterior ao mesmo tempo. O corpo do mártir acolhe a dor e a salvação. O corpo de um drogado, de um possuído, de um estigmatizado, recebe em si o que lhe é exterior.
Bobagem dizer portanto, como fiz no início, que meu corpo nunca está em outro lugar. Meu corpo está sempre em outro lugar. Está ligado a todos os outros lugares do mundo, e está num outro lugar que é o além do mundo. É em relação ao corpo que existe uma esquerda e uma direita, um atrás e um na frente, um embaixo e um em cima.
O corpo está no centro do mundo, nódulo utópico a partir do qual penso, sonho, me comunico. O corpo, como a Cidade de Deus, não tem lugar, e é de lá que se irradiam todos os lugares possíveis.
Apenas o espelho e o cadáver selam e calam essa voragem utópica. Os dois estão num outro lugar impenetrável, mas nesse momento já não sou eu mesmo. Para que eu seja eu mesmo, no meu corpo, sem utopia, é preciso uma situação bem definida. Só o ato amoroso, quando nos entregamos a ele, acalma a utopia do nosso corpo: por isso é tão próximo, no imaginário, ao espelho e à morte. É porque só no amor o meu corpo está AQUI.

13 junho 2014

Julia

Julia é como um sonho, um soneto
uma melodia simples, 
pianissimo.
nota após nota em uma crescente
de vida. 
É pulsação de liberdade
É acalento. 
É cuidado com tudo que respira
É brava, a pequena. 
Desbravadora de sonhos
Enlaçadora de mundos,
Menina, mulher, menina 
É a doçura esparramada, assim
sem vergonha.
É quem me ama porque me vê,
porque se reconhece em mim
no que há de profundo e raso de existir. 

Julia é mística. 
Acredita em duendes. 
Dança por horas no tambor crioulo do Daime. 
É a minha admiração eterna 

e gratidão de dividirmos o mesmo solo.

MASNAVI

#27

"estava ali parado mas era como se à minha volta rodasse, sereno parecia mas de desse um passo meu corpo se faria um canteiro de flores devastado, de olhá-lo soube que a alma me tomaria, tomou-a, e de palavra pouca, tantas dentro de si onde não se dizia, era como se fosse o reverso do belo sem deixar de sê-lo, ao redor a tarde ficou imóvel, as árvores e as águas sem ruído, eu mesma parecia desenhada e não viva como estivera há pouco, e mais viva que nunca é o que eu estava," - trecho de Tu Não Te Moves de Ti. Hilda Hilst. 

#26

Eu e você, você e eu, eis tudo: o resto do mundo
é nulo.
Se quer saber, pergunta às ondas verdes do mar.
irresponsável como elas, eu nunca sei o que quero. 
A noite é boa, cálida, e o pecado, que pode
importar?

Beija minha boca e diz que o meu coração

procura.
Quando rio ou choro, é como se ondas
estivessem batendo.
contra um negro barco - crê que seja realmente 
amor? 
Sim, eu creio! 

Tove Ditlevsen (1939)


Já não me calo nas noites 
Quando o ar rarefeito cruza-me
as têmporas 
Choro as tempestades como 
benção,
Fecho os olhos e abraço 
infinitamente estes lobos 
enfurecidos.

Estamos longe, 
Dentro, amor. 
Cavalgando na direção oposta
do que é verdade. 

Cada vez que o pássaro cantar ao amanhecer
na sua janela,
Reconhecerá minha voz viva
Iluminando seu quarto, 
entreaberto. 

Reconheço teu animal
selvagem, suplicante
rastejando como humano, à deriva. 

Não ouse me encarar. 
Somos luz. 
Somos a névoa que cobre 
o cume das montanhas que desenhas;

Terá coragem de subir até lá? 

MASNAVI | CASTRO 

09 junho 2014

#25

"Eu não olho mais nos olhos da mulher que tenho em meus braços, mas os atravesso nadando, cabeça, braços e pernas por inteiro, e vejo que por detrás das órbitas desses olhos se estende um mundo inexplorado, mundo de coisas futuras, e desse mundo toda lógica está ausente (...) Quebrei o muro (...) meus olhos não me servem para nada, pois só me remetem à imagem do conhecido. Meu corpo inteiro deve se tornar raio perpétuo de luz, movendo-se a uma velocidade sempre maior, sem descanso, sem volta, sem fraqueza (...) Selo então meus ouvidos, meus olhos, meus lábios".
Henry Miller - Trópico de Capricórnio

O meu corpo flutua no mar quando fecho os olhos e sinto a água inundar braços, pernas, cabelos, a nudez livre que corremos para agarrar quando o mar nos chamou para um abraço. No teu colo, não era corpo, nem mulher, nem materialidades, era o vento, as ondas, a voz que pedia para que você me segurasse forte, era o medo se descontruindo a cada onda que nos rebatia e nos transformava também em onda. Não sou a mulher que ama silenciosamente a cada dia que nasce e renasce ao longo da existência que chamamos tempo. Não sou a mulher que dança, que tem deitado na grama verde ao som de ópera refastelando-se de si ao sol. Não sou a mulher. Não sou o homem. Sou a voz que te calou toda vida. Sou o fogo que derreteu tuas correntes. Sou o campo de flores que te chamou para correr. Sou o cão que te olha no fronte e te leva ao mais profundo inconsciente. E ainda assim não sou tua. Não sou minha. Porque somos todos esses fenômenos que nos ocorre quando estamos de mãos dadas enfrentando nossos mundos gigantes. Somos o devir sagrado e a resposta para tudo que você tem procurado nos livros, da tua solidão absurda, na tua incoerência e no teu uivo que bate na minha janela ou no sonho em que você traz sua própria avó para falar comigo.
Somos uma. E não somos.
E quando te reconheci, sabia que era a mulher da minha vida. De todas as minhas vidas.

CASTRO

04 junho 2014

A pele que há em mim

Quando o dia entardeceu
E o teu corpo tocou
Num recanto do meu
Uma dança acordou
E o sol apareceu
De gigante ficou
Num instante apagou
O sereno do céu

E a calma a aguardar lugar em mim
O desejo a contar segundo o fim.
Foi num ar que te deu
E o teu canto mudou
E o teu corpo no meu
Uma trança arrancou
E o sangue arrefeceu
E o meu pé aterrou
Minha voz sussurrou
O meu sonho morreu

Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada.
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala.
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada.

Quando o amor se acabou
E o meu corpo esqueceu
O caminho onde andou
Nos recantos do teu
E o luar se apagou
E a noite emudeceu
O frio fundo do céu
Foi descendo e ficou.

Mas a mágoa não mora mais em mim
Já passou, desgastei
Para lá do fim
É preciso partir
É o preço do amor
Para voltar a viver
Já nem sinto o sabor
A suor e pavor
Do teu colo a ferver
Do teu sangue de flor
Já não quero saber.

Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada.
O meu barco vazio na madrugada
Vou deixar-te no frio da tua fala.
Na vertigem da voz
Quando enfim se cala.

Márcia