10 fevereiro 2014

Sem título


Não há motivo para te importunar no meio da noite.
Como não há leite no frigorífico, nem um limite traçado para a solidão doméstica.
Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito
e tu queres dormir descansada.
Tens
direito a um subsidio de paz.
Se eu escrever um poema,
esse não é um motivo para te importunar
Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas amanhã cedo.
Toda gente sabe que a noite é longa.
Não tenho o direito de te telefonar para te dizer isso,
apesar dessa evidência me matar agora.
E morro, mas não morro.
Se morresse, perguntavas
porque não me telefonaste?
Se telefonasse, perguntavas
Sabe que horas são?
Ou não atendia. E ficava aqui
Com a noite ainda mais comprida,
com insônia, com as palavras a desapegarem-se dos pesadelos.