14 fevereiro 2014

#24

Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse
ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a
confiança com que se entregariam duas compreensões.
Perigo, afinal, de ser: de ser humano
no horizonte do impossível.


Para minha (nunca minha) Lóri, com o amor dos insanos, dos embriagados, dos libertários, dos acorrentados em sonhar, dos esquizo-platôs,  das mulheres-lobos, das raposas assustadas e fulgás, dos indiozinhos visionários, dos iron-made-self-runners, das putas, dos homens que carregamos no pau imaginário do nosso erótico, dos múltiplos-gêneros-blessed souls, das almas que se unificam e consagram, da reza que é te amar com devoção. do cão que senta à porta todo dia, atento. 

Castro

Eu

Eu sou a tangência de duas formas opostas e justapostas
Eu sou o que não existe entre o que existe.
Eu sou tudo sem ser coisa alguma.
Eu sou o amor entre os esposos,
Eu sou o marido e a mulher,
Eu sou a unidade infinita
Eu sou um deus com princípio
Eu sou poeta!

Eu tenho raiva de ter nascido eu,
Mas eu só gosto de mim e de quem gosta de mim.
O mundo sem mim acabaria inútil.
Eu sou o sucessor do poeta Jesus Cristo
Encarregado dos sentidos do universo.
Eu sou o poeta Ismael Nery
Que às vezes não gosta de si.

Eu sou o profeta anônimo.
Eu sou os olhos dos cegos.
Eu sou o ouvido dos surdos.
Eu sou a língua dos mudos.
Eu sou o profeta desconhecido, cego, surdo e mudo
Quase como todo o mundo.

1933
       
                                           Ismael Nery

10 fevereiro 2014

Sem título


Não há motivo para te importunar no meio da noite.
Como não há leite no frigorífico, nem um limite traçado para a solidão doméstica.
Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito
e tu queres dormir descansada.
Tens
direito a um subsidio de paz.
Se eu escrever um poema,
esse não é um motivo para te importunar
Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas amanhã cedo.
Toda gente sabe que a noite é longa.
Não tenho o direito de te telefonar para te dizer isso,
apesar dessa evidência me matar agora.
E morro, mas não morro.
Se morresse, perguntavas
porque não me telefonaste?
Se telefonasse, perguntavas
Sabe que horas são?
Ou não atendia. E ficava aqui
Com a noite ainda mais comprida,
com insônia, com as palavras a desapegarem-se dos pesadelos.

04 fevereiro 2014

#23

Qual será o seu rosto
E o encosto que fita sua nuca
E te toca
O vão do pescoço

Qual será a sua mão
Que entrelaça a outra
Caminha descalça
E me deixa sem rosto

Qual será o seu gosto
O tom dos seus gestos
O engano que é posto
O oposto do corpo
Que se faz disposto

E se ouço seu peito
Ainda viçoso,
Em tom de rufar
Me perco no mar
Perdido no sonho.


Sei o exato tom que murmura a voz do seu corpo. 

MASNAVI