15 janeiro 2014

Poemas de Despedida #13

A Menina Árvore 

Quando a vida nos arrebata, não há banto nem rebento que segure o rio de fazer a curva.
Vi a moça clara, de cabelos arredondados, dançando livres pelo ar da rua. Ela tinha a testa tensionada que formava um vinco por entre os olhos, um caminho paralelo que desaguava em seu nariz. O nariz suavizava o canto de um sorriso difícil e encantador.
Minhas mãos desencantavam corredeiras de suor que desaguavam ao colo e tremiam quentes ao esconder minha surpresa. Então te reconheci.
- Escute. Disse-te com o ouvido em seu coração.
- Não, não encoste ai. Dói muito. Disse a moça.
- Não dói. É quentinho. Gosto daqui.
- É sério. Dói muito.
Então percebi a cicatriz que havia no centro do peito da moça. Um rabisco desforme que escorria entre os seios.
- O que houve? Questionei.
- Uma cirurgia de infância.
- Não, não isso. Há um volume crescendo do lado esquerdo. Percebe?
- Não coloque a mão, por favor.
A moça então pediu que eu a levasse ao mar.
Percorremos uma longa trilha, sob um sol escaldante que chegava a uma praia deserta, onde não se avistavam barcos ou pessoas.
- Entre! A água não esta gelada.
A moça paralisada com água até a cintura disse: - Estou indo. Vou ao meu tempo. Não me espere.
- Sim, querida. Estou aqui. Disse estendendo-lhe a mão.
A moça então mergulhou a cabeça nas ondas e nadou, nadou incansável até o fundo do mar. Quando saiu, seu peito tinha um pequeno buraco, com uma espécie de graveto apontado para fora.
- Você esta bem? Machucou-se? Tem um graveto no seu peito, deve estar doendo.
- Esse graveto sou eu. Não encoste. Disse a moça.
- Você é uma árvore?
- Não sei.
- Acho lindas as árvores.
- Você não devia ficar. Não vale a pena.
- Você sabe de onde vem esta expressão? Perguntei a moça, já lhe estendendo a mão para sairmos do mar.
Deitamos na areia da praia enquanto a noite caia e lhe disse: - Segundo O Livro dos Mortos, uma vez preparado o cadáver e depositado no sarcófago, fazia-se uma procissão rumo ao túmulo e chegando lá o sacerdote realizava o ritual de abrir a boca da múmia, para que ela (múmia) voltasse à vida. Todo o material funerário, juntamente com o sarcófago e as oferendas, era depositado no túmulo, que, a seguir, era selado para que nada perturbasse o eterno repouso do defunto. Assim, o morto iniciava um longo percurso pelo mundo Além-Túmulo. Anúbis, levava-o perante Osíris, o qual juntamente com outros deuses, realizava a chamada psicostasia, em que o coração do defunto era pesado. Se as más ações fossem mais pesadas que uma pena de avestruz, o morto iria para o Inferno Egípcio. Se passasse  satisfatoriamente por essa prova, podia percorrer o mundo subterrâneo, cheio de perigos, até o paraíso (Campos de Iaru). Assim, sua vida tinha que ser vivida de forma a valer a pena na hora do julgamento final.
- Você não devia perder seu tempo com uma menina-árvore.
Cada vez que a moça entrava no mar, seus galhos aumentavam e ficavam mais visíveis em seu corpo.
Os dias foram passando e ficávamos na praia, vivendo dos frutos da natureza, escondidos de todos que pudessem julgar o acontecimento novo que ocorria a amada moça.
- Vamos contar estrelas? Disse a moça.
- Que tal contarmos quantas folhas já nasceu do seu peito?
- Não encoste a mão. Dói muito.
- Fique calma, vamos olhar com carinho.
- Não! Disse a moça com veemência e saiu correndo pela praia.
Procurei-a por noite adentro, me perdi no emaranhado de árvores e galhos da floresta. Com muito medo me sentei embaixo de uma pedra e ouvi um choro baixinho. Segui as folhas coloridas que haviam se despedaçado no caminho e finalmente cheguei até a moça. Seus galhos haviam partido na correria e suas belas folhas despencadas no chão.
- Não corra.
- Não encoste a mão. Dói muito.
- Calma. Calma. Você precisa de água.
Juntei minha camiseta suada e fui passando suavemente nos galhos que saiam do seu coração, limpando as serragens e sujeiras de terra que surgiram no seu correr desesperado.
- Você corre muito.
- Eu gosto de correr.
- Você é muito forte. Muito forte. Você me deixou com medo. Pensei que não fosse te ver mais.
- Você não percebe que estou virando uma árvore? Sai daqui. Disse a moça.
- Esta praia esta mesmo precisando de uma árvore. Já percebeu que há pouca sombra?
Delicadamente fomos ao mar nos banhar e ela disse: Não consigo mais nadar. Posso te ensinar?
- Sim. Eu ficaria muito feliz.
- Coloque um braço, depois o outro. Apoie-se nos meus galhos e flutue, balançando os pés.
- Eu estou nadando! Eu estou nadando!
Confesso que fiquei extasiada a me ver nadando. Já tive pânico do mar quando criança e uma pequena inveja de meu irmão que mais parecia um peixe.
- Eu estou nadando! Eu estou nadando!
- Querida, preciso de água doce. Meus galhos estão crescendo e a água do mar não tem me feito bem. Preciso que você aprenda a nadar para chegar até a divisa das águas.
Todos os outros dias foram cansativos. Fazíamos aquele exercício diariamente até que aos poucos eu avançava cada vez mais no mar.
Passaram-se dias, meses, anos. A rotina era a mesma e nos transformávamos em formas diferentes. Um reflexo singelo e ás vezes difícil de viver.
- Vamos para o mar?
- Não consigo. Meus galhos estão grandes demais, já se arrastam ao chão. Preciso escolher um lugar na praia e ficar lá a partir de agora. Disse a moça.
- Eu vou buscar sua água e vamos encontrar um lugar.
Percorremos toda a ilha e encontramos um lugar perfeito. Ali encostamos junto a pedra e ajudei a ficar suas raízes no chão.
- Dói quando toco? Perguntei.
- Não mais. Suas mãos são macias.
- Você esta confortável?
- Sim. Deite-se aqui. Vamos assistir ao crepúsculo.
A noite chegava e as raízes iam se afundando no chão. Ao redor, percebi que pequenas flores passaram a florescer com a sombra que fazia.
- Veja, você tem companhia!
- E vou precisar de mais água. Desculpe-me. Disse a moça.
Com o tempo, os galhos foram tomando seu corpo e mantinham apenas seus olhos e boca descobertos. Eu ficava fitando-a durante todo o dia e contando-lhe minhas histórias de infância. Observávamos o voar dos pássaros, as idas e vindas dos barcos, o mudar das estações, até que um dia o tronco levou também seus olhos e boca.
Neste dia chorei tanto que floresceu um girassol em uma de suas raízes. Um girassol imenso e um lírio branco.
Deitei em volta da frondosa árvore e fiquei abraçada durante um dia e uma noite. Minha mão ainda ficava quente quando encostava no coração da moça. Eu sabia exatamente de onde tinha surgido o primeiro galho.
Ali passei anos nadando e levando a água. Surgiu uma imensidão de espécies floridas em seu entorno. A praia foi ficando colorida como um sonho e passou a existir cada vez mais pássaros, mais peixes, mais insetos. Havia cada vez mais vida em nossa volta.
Você valia a pena.

Não uma, mais milhares delas. Plumagens, sons e cores. Valia muitas vidas, muitas inspirações, muitos aprendizados. Você valia todo amor do mundo. No único mundo que importava. O nosso. 

Castro.