12 janeiro 2014

Poemas da Despedida #4

Fechei a porta e desci as escadas secando o rosto que transbordava. Segurei firme a chave de casa. A chave que trouxe para te entregar. Antes de sair de casa, pela primeira vez lembrei-me de dar água a flor que vive na cozinha. Imediatamente, ela reergueu-se ao lado das bananas e eu fiquei tão feliz que agradeci por ela ter me esperado todo este tempo, ficando como pode no cantinho da mesa, me lembrando do dia que veio precedendo um jantar.

Nas ruas, contei os prédios, refiz mentalmente os caminhos que fazíamos em noites bonitas ou nas manhãs de domingo de café da manhã extenso, das idas ao parque, do ir de vir das bicicletas. De repente no meu dia não havia nada, planos ou lugar para onde ir.


Eu só fechei a porta porque não consegui ouvir seu pedido de que houvesse um fim. Não tinha nada a dizer porque não ousaria te convencer a seguir um caminho diferente daquele que você propunha, uma vez que lhe disse milhares de vezes que você deveria, com carinho, construir um caminho com a sua cara. A mim coube aceitar e conviver com os milhares de fantasmas que atordoam com doçura e desespero a minha casa, a minha cabeça e roubam os conteúdos da minha alma rindo-se de mim ao amanhecer. Porque o amanhecer sem cheiro de café pode ser mais tenebroso do que a morte.