11 janeiro 2014

Poemas da Despedida #1

- Daqui nove dias vamos fazer cinco meses.
- Você conta os dias? Que bonito, disse a gringa.
- Gosto de saber que o tempo passa nos transformando. 

Ela corta os legumes com disciplina. O formato da mão em concha é sempre idêntico, um dedinho colado no outro. É tão lindo de ver  que me parece uma entrega milimétrica a fazedura do alimento. É admirável.  

Ela também acorda com um olhar doce e brilhante como duas luas misteriosas que procuram abrigo em meio a uma tempestade de silêncio, que de tão doces me dão uma esperança de vida em meio ao caos que posso acreditar em tudo que você disser pela manhã. 

E tem o seu levantar de corpo forte, corpo rígido, curvilíneo, perfeito e primitivo que se move como os lobos, com passos delicados e corrida de explosão, de ataque, de obstinação. Essa mistura bruta de querer e de morrer que transborda poesia de salvação no encalço de felicidade, de paz, de luta eterna.

Às vezes vejo a menina levada, de saia e blusa colorida, sentada no sofá surrado da casa bege, da bicicleta correndo, dos banhos de balde, dos pés na grama, da liberdade, do sorriso, do ensolarado.

Ela também é dolorosamente triste. Posso ver nuvens por entre a enorme cicatriz do seu peito, parece que abriga ali um santuário de deuses sagrados e lindos girassóis tranquilos que repousam no seu silêncio digno de monges. Sempre acreditei que teu peito abriga a doçura e a fragilidade do teu choro sentido, do teu olhar fiel e tão sincero. Tuas lágrimas semeiam  uma infinidade de espécies floridas e cores sem fim.

Ela também faz sexo como dança, segurando a mão e olhando no olho, entregue em ritmo e loucura, perdendo-se nos cheiros e nas névoas que possam surgir. Dali vi nascer a mulher, mas também a criança frágil, o desespero, o vazio, o amor, a solidão.Vi a forma que nos moldamos dia a dia nas nossas conversas que atravessavam a noite, vi sua cabeça cabisbaixa, vi seu choro, vi seu largo sorriso, vi seu silêncio. 

Te vi como você não se viu. E espero que se veja. Espero que se veja enorme. Espero que veja os frutos que deram certo, tão certo dentro de ti que se multiplicaram em mim e fincaram-se raízes absolutas de enormes árvores capazes de dar luz e sombra à vida.