13 janeiro 2014

Poema da Despedida #7

Não há nada que me tome mais do que a lua macia que aponta ao fim da rua, que subindo mambembe me abraça dizendo coisas de amor. Acaricia meu ouvido serena, chora segurando minha mão de medo e me reflete a força descomunal de quem enfrentaria tudo por um pacto sem sangue, porque além do pacto há os olhos de um cão fiel que não sabe enfrentar à vida (eu também não sei), mas que segue porque no segurar da minha mão em público vai me levando para nossa vida (que já não é mais só a minha vida) e é a nossa vida sonhada (então também aprendendo a sonhar juntas) e vamos sobrepondo não tijolo, mas grão por grão, porque somos honestas demais e assustadas demais para pisar com dois pés, mas quando menos vi já estava com água na cintura, a roupa de banho jogada na areia da praia e nadando nua, no paraíso perdido, você me segurou nos braços e me carregou como uma brincadeira de criança e eu dizendo:  – Venha, deixa eu te carregar também, parece um ventre materno de tão livre que é a sensação. E você sorria uma felicidade pujante, seus olhos transformaram-se em duas esmeraldas brilhantes, lapidadas incansavelmente de pedra bruta, primitivas como a terra. Rodamos no mar, no alto de nossos braços, as rotações da terra e a liberdade de quem ama jogado, lançado no mar. Além do pacto, há o amor sendo feito em redes sob a luz de mil estrelas na escuridão das velas e dos insetos. Há o calor úmido do teu ventre sempre disponível aos mil tentáculos que meu desejo quer. Estes mil tentáculos invisíveis que surgiram do nosso encontro e que mantiveram em pé a minha ordem e a minha paz, a minha felicidade efêmera e cotidiana, a minha espera diária da noite que cai e da tua sombra avançando na nossa casa, na nossa cama, aos olhar dos gatos, aos olhar de todos que não veem que há amor possível e imperfeito e honesto e avassalador e calmo e de preenchimento profundo de todos os medos que podem ser curado com todos os carinhos e todas as conversas e todos os rios de lágrimas e estradas de viagens que viriam se não tivesse a boca cessado a vida e sonoramente me enviado para um mundo assustador de saudade e sonhos. Sonhei todos os dias dos últimos cinco meses como se a vida fosse música. Como se a vida fosse como ela realmente é. Feliz, infeliz.

Eu sorrio, eventualmente. Porque você existe. Você existe na tua beleza paralisante, na tuas doces palavras de balões que voam livres e nunca sabem quando voltam. Você existe como cheiro de mata com chuva. Você existe no mar que me toca. E existirá pra sempre na pedra e nas esmeraldas que fizemos surgir. 

Castro.