18 janeiro 2014

Poema da Despedida #17

Tive a fortuna de recebê-la em casa no dia de seu aniversário, sorridente e atarefada, vistoriando a miséria da minha casa. Chegou cuidando de meus móveis, tirando o pó das janelas, podando minha flor preferida da mesa da cozinha e afagando meus lençóis. Chegou a por gelo na água dos gatos, matou as formigas do prato de ração e me deu mais histórias de sua mãe, minha avó, a cigana.
- A gente tem esse sangue delirante e sofrido, sensível demais. A gente fica perdida no mundo.
Foi me contando como sentia a tristeza, que já havia passado por tanta tragédia e que acordar com aquela força era travar uma batalha por dia.
- Você é muito sensível. Você é que devia ter sido médica. Eu sou velha e pareço forte, mas eu choro muito. Muito. E a força esta em sentir, em chorar. Mas eu tinha certeza que você ia ser médica. Era uma criança muito curiosa pela vida, gostava dos bichos. Uma vez achou um passarinho morrendo e trouxe pra casa, deu um jeito de abrir-lhe o peito e me mostrou o coraçãozinho batendo ainda. Você queria de todo jeito saber como funcionava um coração.
- Eu matei um pássaro? Perguntei espantada, considerando minha pré-disposição ao vegetarianismo desde criança.
- Não matou. O bichinho estava agonizando. Você ficou mal por dias e fez eu lhe trazer um pintinho. Você amava os pintinhos. Era uma criança tranquila, quase inacreditável. Onde eu te colocava você ficava. Olha tenho até esta foto aqui, te coloquei no sofá e mesmo fazendo um beicinho, lá ficou.
Eu adoro ver fotos de infância, mais ainda quando vem das tuas mãos. Você fala da minha infância com tanto carinho.
Passamos para a sala e você sugeriu um escalda pés. Trouxe a água quente e pediu que eu sentasse na poltrona. Enfiei o pé na água fervente e em silêncio fiquei. Realmente, onde você me coloca eu fico sem reclamar. Você sabe onde vive o meu silêncio.
Quando você disse que eu devia ter sido médica, logo pensei, em silêncio, que eu cheguei perto da psicologia com esta intenção. Mas não fui competente na arte de não me misturar na dor do outro. Eu me enfiava na água fervente sem reclamar.

Graças a Deus você existe. Não é a toa que se chama Maria das Graças. Não é a toa que você resolveu aparecer para ficar um dia e ficou três. Você não viu a agonia do meu peito queimando a noite, mas fiquei lá onde você me colocou, em silêncio.