17 janeiro 2014

Poema da Despedida #15

Quando a prosa não é curta e a rima é dispersa, brota letras como essas no discurso entre o vão. Nascera ali, a mitose circunstancial de um óvulo fecundado. A fusão esquemática de uma equação não lógica. Amanheceu no choro sísmico em um parto longo e demorado. Sua forma líquida e viscosa tinha olhos amarronzados. Sua constituição amorfa foi dando-se corpo aos olhos do Outro, no labirinto de cópia e asco da vivência parental. Procurou a cópia. Amou a cópia. Gozou na cópia a bagagem ancestral do pai. Amou a réplica e tornou-se a escultura do dizer maldito da réplica. A imagem e semelhança da voz da réplica. O despudor e aceitação da réplica. E sob a margem de si, rompeu consigo, viajou no tempo. Irrompeu uma forma tridimensional, um ponto de passagem. Vagou. Quando voltou em si, conheceu um outro. Não mais a cópia, não mais a regra. Um outro assustado e compadecido, desarmado e punido. Viu no outro o espelho. Assustada, não viu a forma. Ouviu dizeres de uma imagem desconhecida, na qual não era estátua, mas criação vívida. Não acreditou na voz. O espelho refletia a sombra da réplica, a voz da réplica evocando pequenez. Ainda estava imersa na voz da réplica. Embaralhava-se nos sons antônimos de sentidos – que evocavam sua pequenez e sua força. A sombra do passado e a luz presente, intensificando sua dor consciente – de passagem confessa. A voz presente ecoava seus encantos sísmicos. A voz presente ecoava suas angústias como rito de passagem, como caminho árduo que leva a lugares inimagináveis e que também evocariam seu passado mais longínquo e feliz. Nascia em seu corpo o símbolo tardio de uma existência infinita, para sob o signo da voz, da expressão, da liberdade, da presença em si e no outro. O símbolo remanescente da inocência, o vínculo que revela uma possibilidade de ver-se em si, revelada por si, significada por si, ao som da própria voz. Era o anúncio de um novo mito, uma nova epopeia. O símbolo era amor. Amor que reflete a antítese do mal estar. A liberdade fecunda na descoberta de si, da paz na alma de não se tornar imagem desforme do dizer do outro, mas do reflexo de si, identificado e validado através do outro. A voz presente é a minha voz.

O amor vivido é libertação de todo mal. 

Castro