31 janeiro 2014

#22

Atravessou a porta lentamente e paralisou. Cruzaram os olhares e no entreolhar se reconheceram como causa pétrea. Não havia escapatória. Ainda que sem acreditar em destino, carregavam-se no sangue, eram corpos bipartidos de outras existências e finalmente decidiram entreolhar-se, aventurando-se no amor, arriscando-se. Não haveria experiência mais aterrorizante do que tê-la frente aos olhos, materializando seus desejos secretos e apaixonados.
Um passo a frente e vislumbraram o abismo. Deram as mãos e alcançaram um voo fumegante. Abraçaram-se com febre e torpor. Era dia de graça e pertencimento. O mundo paralisava-se diante da oferenda de afeição gratuita e genuína. Entrelaçaram-se e abandonaram-se por tempo indefinido, insignificante. Havia então um lugar de pertencimento no caos que sobrevivia através do amor.
Quando criança, ela queria ir atrás dos ciganos de sua cidade. Sentia-se atraída por eles. Sua mãe alertara da má índole da raça e arrastara-a para longe dos mambembes. Reconheceram-se na potência artística. De revirar o mundo de ponta cabeça para caber em si. Quando se olharam diante da porta, percebera o olhar curioso da cigana. Não havia nada para impedi-los de serem. Nada além de suas vontades.
E fora longe da mambembe cigana.
A raça sem história escrita depende de mapas estelares e intervenções da lua cheia para se localizar no mundo. Havia uma lua cheia imensa e cintilante no dia de setembro. Havia uma rua cheia de gente indo e vindo, mas eles se encontraram exatamente no meio da rua, abaixo da lua.
O mundo estava mesmo cheio de gente.
A alegria circense, a poesia falada, a astrologia, a cartomancia, seu intuir, sua bússola secreta, seus muitos tons se espalharam no palco onde foi estrela. Sozinha, em cima do palco com plateia garantida viu-se ensinando. Entre os ouvintes, havia sua sombra. Não dava um passo sem amar.

E amava por muitas vidas.

MASNAVI