31 janeiro 2014

#22

Atravessou a porta lentamente e paralisou. Cruzaram os olhares e no entreolhar se reconheceram como causa pétrea. Não havia escapatória. Ainda que sem acreditar em destino, carregavam-se no sangue, eram corpos bipartidos de outras existências e finalmente decidiram entreolhar-se, aventurando-se no amor, arriscando-se. Não haveria experiência mais aterrorizante do que tê-la frente aos olhos, materializando seus desejos secretos e apaixonados.
Um passo a frente e vislumbraram o abismo. Deram as mãos e alcançaram um voo fumegante. Abraçaram-se com febre e torpor. Era dia de graça e pertencimento. O mundo paralisava-se diante da oferenda de afeição gratuita e genuína. Entrelaçaram-se e abandonaram-se por tempo indefinido, insignificante. Havia então um lugar de pertencimento no caos que sobrevivia através do amor.
Quando criança, ela queria ir atrás dos ciganos de sua cidade. Sentia-se atraída por eles. Sua mãe alertara da má índole da raça e arrastara-a para longe dos mambembes. Reconheceram-se na potência artística. De revirar o mundo de ponta cabeça para caber em si. Quando se olharam diante da porta, percebera o olhar curioso da cigana. Não havia nada para impedi-los de serem. Nada além de suas vontades.
E fora longe da mambembe cigana.
A raça sem história escrita depende de mapas estelares e intervenções da lua cheia para se localizar no mundo. Havia uma lua cheia imensa e cintilante no dia de setembro. Havia uma rua cheia de gente indo e vindo, mas eles se encontraram exatamente no meio da rua, abaixo da lua.
O mundo estava mesmo cheio de gente.
A alegria circense, a poesia falada, a astrologia, a cartomancia, seu intuir, sua bússola secreta, seus muitos tons se espalharam no palco onde foi estrela. Sozinha, em cima do palco com plateia garantida viu-se ensinando. Entre os ouvintes, havia sua sombra. Não dava um passo sem amar.

E amava por muitas vidas.

MASNAVI 

29 janeiro 2014

#21

Tão cedo passa
Tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais, é nada.

--

E o tempo. Este deus que tudo incorpora.
Solta ao vento a própria sorte.
Traz a vida, também a morte.

Nós que somos frutos fecundo do mundo
Trememos face aos caminhos
Lançamos nossa sorte ao destino
Nós tornamos inférteis e risíveis.

Morremos.
Morremos em si.
Calamos irresponsáveis.
Acovardamos o amor.


Tão cedo passa. 

MASNAVI 

28 janeiro 2014

#20

Somos como a noite
Tempestiva toada dos ventos
Abraçamo-nos com olhos sedentos
Dançando com língua e dedos
Emaranhado de caos e intento.

Somos como o dia
A suave brisa quentinha
Que assopra as manhãs sem rotina
Que desperta a arte vazia
De dar todo sentido a vida
Pelas mãos que tateia e trepida
O desejo e a parte perdida

Numa tarde,
Talvez numa vida
Renderemos ao amor que caminha
Ao nosso lado,
Como soldado em guerrilha
Mutante – soldado – saudade
Em si,
Significante sem significado.


Castro

22 janeiro 2014

Poemas da Despedida #19

Ismãlia

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...  (Alphonsus de Guimaraens)


Calada noite que me traz a luz
Arrebatada de sentidos torpe
Eleva minh’alma delirante
Cedendo a sorte deste instante

Que me devolvam a alma
Minha fé desmedida
Que o ventre pétreo, pare
Sob as nuvens perdidas

Pés descalços andem
Em estrada escolhida
Atravessando no vento,
Suspirando as feridas.      (CASTRO)


21 janeiro 2014

Ninfomaníaca ou A Dança com Tânatos

Longe de ser um filme sobre prazer ou um pornô soft excitante como pode insinuar o cartaz ou o tema, há alguns incautos; Lars Von Trier continua falando de morte tanto ou mais do que em Melancholia. 
Lars me parece mais preocupado em dizer dos sintomas dessa mania, desse adoecimento, do que mostrar cenas de sexo excitantes. Aliás, trabalha num nível de desambiguação tão irônico que vai vomitando na cara do espectador umas dezenas de cenas de sexo como quem descreve uma receita de bolo, de um bolo com gosto de nada. Numa certa sequência, preocupa-se em desfilar dezenas de pênis flácidos de variadas cores e proporções como quem dispõe linguiças no varal de açougue. É a mecânica do sexo que está explícita e não a dança sensual que poderia estar atrelada ao sexo.
Nesse sentido, o que mostra nas sequências de corpos nus se relacionando é cansativo, monótono, frio, triste, sombrio, pálido, angustiado, repetitivo como a Todestrieb (pulsão de morte), que segrega tudo que é vida em prol da destruição. Ou seja, estamos falando de uma dança com Tânatos e não com Eros.
       Joe, personagem tema, aparece contando a sua maníaca história a um homem que a resgata e que a “põe a falar”, numa disposição que poderia nos remeter ao paciente que fala ao analista. Neste caso, sedutoramente, Lars Von Trier nos convida a quebrar a quarta parede e viver esse papel. O analista automaticamente, somos nós. E essa “paciente”, viciada em sexo, filha de um Édipo clássico, apaixonada por um belo pai que não faz função e odiosa de uma bela mãe a quem chama de vadia insensível, nos brinda com ‘colóquios’ como : (enquanto transa compulsivamente) : “preencha todos os meus buracos" ou ainda (sobre todos os amantes que trata através de um dado que joga para escolher na sorte que tipo de tratamento deve lhes dar): “Todos os meus amantes são, na verdade, um só.”
Ou ainda , (na última transa intensa da fita) : “Eu não sinto NADA.” 
Sim, Joe está certa todos os homens e nenhum é a mesma coisa. Todos os amantes do mundo são um só , são a sua doença, são sintoma, são Gozo !
Joe (assim como a mãe a quem ela chama de IN-sensível) NÃO SENTE NADA e é disso que se trata a sua dor.

18 janeiro 2014

Poema da Despedida #18

Alves,
Sabe que as páginas me inquietam sôfregas ao deslizarem uma a uma no meu colo quente. Levantar-se, evitar o cheiro de café, ler seus livros, dar ração aos gatos, esvaziar o cesto de lixo. Aprender a insensibilidade, aprender a anestesia, aprender o desapego, aprender a não ter mais coragem, aprender a embrutecer, a desacreditar, a deixar-se mecanizada, a escrever e apagar, aprender a apagar memórias, dizimar sentidos, a viver menos, a andar com pés no chão, a ter cuidado, a acreditar em avisos, isso e aquilo que me colocam no prumo de um barco caquético e mórbido. 

Poema da Despedida #17

Tive a fortuna de recebê-la em casa no dia de seu aniversário, sorridente e atarefada, vistoriando a miséria da minha casa. Chegou cuidando de meus móveis, tirando o pó das janelas, podando minha flor preferida da mesa da cozinha e afagando meus lençóis. Chegou a por gelo na água dos gatos, matou as formigas do prato de ração e me deu mais histórias de sua mãe, minha avó, a cigana.
- A gente tem esse sangue delirante e sofrido, sensível demais. A gente fica perdida no mundo.
Foi me contando como sentia a tristeza, que já havia passado por tanta tragédia e que acordar com aquela força era travar uma batalha por dia.
- Você é muito sensível. Você é que devia ter sido médica. Eu sou velha e pareço forte, mas eu choro muito. Muito. E a força esta em sentir, em chorar. Mas eu tinha certeza que você ia ser médica. Era uma criança muito curiosa pela vida, gostava dos bichos. Uma vez achou um passarinho morrendo e trouxe pra casa, deu um jeito de abrir-lhe o peito e me mostrou o coraçãozinho batendo ainda. Você queria de todo jeito saber como funcionava um coração.
- Eu matei um pássaro? Perguntei espantada, considerando minha pré-disposição ao vegetarianismo desde criança.
- Não matou. O bichinho estava agonizando. Você ficou mal por dias e fez eu lhe trazer um pintinho. Você amava os pintinhos. Era uma criança tranquila, quase inacreditável. Onde eu te colocava você ficava. Olha tenho até esta foto aqui, te coloquei no sofá e mesmo fazendo um beicinho, lá ficou.
Eu adoro ver fotos de infância, mais ainda quando vem das tuas mãos. Você fala da minha infância com tanto carinho.
Passamos para a sala e você sugeriu um escalda pés. Trouxe a água quente e pediu que eu sentasse na poltrona. Enfiei o pé na água fervente e em silêncio fiquei. Realmente, onde você me coloca eu fico sem reclamar. Você sabe onde vive o meu silêncio.
Quando você disse que eu devia ter sido médica, logo pensei, em silêncio, que eu cheguei perto da psicologia com esta intenção. Mas não fui competente na arte de não me misturar na dor do outro. Eu me enfiava na água fervente sem reclamar.

Graças a Deus você existe. Não é a toa que se chama Maria das Graças. Não é a toa que você resolveu aparecer para ficar um dia e ficou três. Você não viu a agonia do meu peito queimando a noite, mas fiquei lá onde você me colocou, em silêncio. 

Poema da Despedida #16

Tenho em mim o universo
Agitado demais
Palpitante demais
Rápido demais
Para minha fome de paz

Tenho em mim o corpo
Febril demais
Afetado demais
Estancado demais
Para minha fome de vida

O que há em mim

É ausência. 

17 janeiro 2014

Poema da Despedida #15

Quando a prosa não é curta e a rima é dispersa, brota letras como essas no discurso entre o vão. Nascera ali, a mitose circunstancial de um óvulo fecundado. A fusão esquemática de uma equação não lógica. Amanheceu no choro sísmico em um parto longo e demorado. Sua forma líquida e viscosa tinha olhos amarronzados. Sua constituição amorfa foi dando-se corpo aos olhos do Outro, no labirinto de cópia e asco da vivência parental. Procurou a cópia. Amou a cópia. Gozou na cópia a bagagem ancestral do pai. Amou a réplica e tornou-se a escultura do dizer maldito da réplica. A imagem e semelhança da voz da réplica. O despudor e aceitação da réplica. E sob a margem de si, rompeu consigo, viajou no tempo. Irrompeu uma forma tridimensional, um ponto de passagem. Vagou. Quando voltou em si, conheceu um outro. Não mais a cópia, não mais a regra. Um outro assustado e compadecido, desarmado e punido. Viu no outro o espelho. Assustada, não viu a forma. Ouviu dizeres de uma imagem desconhecida, na qual não era estátua, mas criação vívida. Não acreditou na voz. O espelho refletia a sombra da réplica, a voz da réplica evocando pequenez. Ainda estava imersa na voz da réplica. Embaralhava-se nos sons antônimos de sentidos – que evocavam sua pequenez e sua força. A sombra do passado e a luz presente, intensificando sua dor consciente – de passagem confessa. A voz presente ecoava seus encantos sísmicos. A voz presente ecoava suas angústias como rito de passagem, como caminho árduo que leva a lugares inimagináveis e que também evocariam seu passado mais longínquo e feliz. Nascia em seu corpo o símbolo tardio de uma existência infinita, para sob o signo da voz, da expressão, da liberdade, da presença em si e no outro. O símbolo remanescente da inocência, o vínculo que revela uma possibilidade de ver-se em si, revelada por si, significada por si, ao som da própria voz. Era o anúncio de um novo mito, uma nova epopeia. O símbolo era amor. Amor que reflete a antítese do mal estar. A liberdade fecunda na descoberta de si, da paz na alma de não se tornar imagem desforme do dizer do outro, mas do reflexo de si, identificado e validado através do outro. A voz presente é a minha voz.

O amor vivido é libertação de todo mal. 

Castro

16 janeiro 2014

Poema da Despedida #14

Sei o que espero. Não sei o que espera. Na dúvida, eu amo. Na certeza, eu amo. Quando me faltam palavras, eu amo. Quando me falta o chão, eu amo. Quando incompleto, clamo por mais. Quando completo, desejo.

15 janeiro 2014

Poemas de Despedida #13

A Menina Árvore 

Quando a vida nos arrebata, não há banto nem rebento que segure o rio de fazer a curva.
Vi a moça clara, de cabelos arredondados, dançando livres pelo ar da rua. Ela tinha a testa tensionada que formava um vinco por entre os olhos, um caminho paralelo que desaguava em seu nariz. O nariz suavizava o canto de um sorriso difícil e encantador.
Minhas mãos desencantavam corredeiras de suor que desaguavam ao colo e tremiam quentes ao esconder minha surpresa. Então te reconheci.
- Escute. Disse-te com o ouvido em seu coração.
- Não, não encoste ai. Dói muito. Disse a moça.
- Não dói. É quentinho. Gosto daqui.
- É sério. Dói muito.
Então percebi a cicatriz que havia no centro do peito da moça. Um rabisco desforme que escorria entre os seios.
- O que houve? Questionei.
- Uma cirurgia de infância.
- Não, não isso. Há um volume crescendo do lado esquerdo. Percebe?
- Não coloque a mão, por favor.
A moça então pediu que eu a levasse ao mar.
Percorremos uma longa trilha, sob um sol escaldante que chegava a uma praia deserta, onde não se avistavam barcos ou pessoas.
- Entre! A água não esta gelada.
A moça paralisada com água até a cintura disse: - Estou indo. Vou ao meu tempo. Não me espere.
- Sim, querida. Estou aqui. Disse estendendo-lhe a mão.
A moça então mergulhou a cabeça nas ondas e nadou, nadou incansável até o fundo do mar. Quando saiu, seu peito tinha um pequeno buraco, com uma espécie de graveto apontado para fora.
- Você esta bem? Machucou-se? Tem um graveto no seu peito, deve estar doendo.
- Esse graveto sou eu. Não encoste. Disse a moça.
- Você é uma árvore?
- Não sei.
- Acho lindas as árvores.
- Você não devia ficar. Não vale a pena.
- Você sabe de onde vem esta expressão? Perguntei a moça, já lhe estendendo a mão para sairmos do mar.
Deitamos na areia da praia enquanto a noite caia e lhe disse: - Segundo O Livro dos Mortos, uma vez preparado o cadáver e depositado no sarcófago, fazia-se uma procissão rumo ao túmulo e chegando lá o sacerdote realizava o ritual de abrir a boca da múmia, para que ela (múmia) voltasse à vida. Todo o material funerário, juntamente com o sarcófago e as oferendas, era depositado no túmulo, que, a seguir, era selado para que nada perturbasse o eterno repouso do defunto. Assim, o morto iniciava um longo percurso pelo mundo Além-Túmulo. Anúbis, levava-o perante Osíris, o qual juntamente com outros deuses, realizava a chamada psicostasia, em que o coração do defunto era pesado. Se as más ações fossem mais pesadas que uma pena de avestruz, o morto iria para o Inferno Egípcio. Se passasse  satisfatoriamente por essa prova, podia percorrer o mundo subterrâneo, cheio de perigos, até o paraíso (Campos de Iaru). Assim, sua vida tinha que ser vivida de forma a valer a pena na hora do julgamento final.
- Você não devia perder seu tempo com uma menina-árvore.
Cada vez que a moça entrava no mar, seus galhos aumentavam e ficavam mais visíveis em seu corpo.
Os dias foram passando e ficávamos na praia, vivendo dos frutos da natureza, escondidos de todos que pudessem julgar o acontecimento novo que ocorria a amada moça.
- Vamos contar estrelas? Disse a moça.
- Que tal contarmos quantas folhas já nasceu do seu peito?
- Não encoste a mão. Dói muito.
- Fique calma, vamos olhar com carinho.
- Não! Disse a moça com veemência e saiu correndo pela praia.
Procurei-a por noite adentro, me perdi no emaranhado de árvores e galhos da floresta. Com muito medo me sentei embaixo de uma pedra e ouvi um choro baixinho. Segui as folhas coloridas que haviam se despedaçado no caminho e finalmente cheguei até a moça. Seus galhos haviam partido na correria e suas belas folhas despencadas no chão.
- Não corra.
- Não encoste a mão. Dói muito.
- Calma. Calma. Você precisa de água.
Juntei minha camiseta suada e fui passando suavemente nos galhos que saiam do seu coração, limpando as serragens e sujeiras de terra que surgiram no seu correr desesperado.
- Você corre muito.
- Eu gosto de correr.
- Você é muito forte. Muito forte. Você me deixou com medo. Pensei que não fosse te ver mais.
- Você não percebe que estou virando uma árvore? Sai daqui. Disse a moça.
- Esta praia esta mesmo precisando de uma árvore. Já percebeu que há pouca sombra?
Delicadamente fomos ao mar nos banhar e ela disse: Não consigo mais nadar. Posso te ensinar?
- Sim. Eu ficaria muito feliz.
- Coloque um braço, depois o outro. Apoie-se nos meus galhos e flutue, balançando os pés.
- Eu estou nadando! Eu estou nadando!
Confesso que fiquei extasiada a me ver nadando. Já tive pânico do mar quando criança e uma pequena inveja de meu irmão que mais parecia um peixe.
- Eu estou nadando! Eu estou nadando!
- Querida, preciso de água doce. Meus galhos estão crescendo e a água do mar não tem me feito bem. Preciso que você aprenda a nadar para chegar até a divisa das águas.
Todos os outros dias foram cansativos. Fazíamos aquele exercício diariamente até que aos poucos eu avançava cada vez mais no mar.
Passaram-se dias, meses, anos. A rotina era a mesma e nos transformávamos em formas diferentes. Um reflexo singelo e ás vezes difícil de viver.
- Vamos para o mar?
- Não consigo. Meus galhos estão grandes demais, já se arrastam ao chão. Preciso escolher um lugar na praia e ficar lá a partir de agora. Disse a moça.
- Eu vou buscar sua água e vamos encontrar um lugar.
Percorremos toda a ilha e encontramos um lugar perfeito. Ali encostamos junto a pedra e ajudei a ficar suas raízes no chão.
- Dói quando toco? Perguntei.
- Não mais. Suas mãos são macias.
- Você esta confortável?
- Sim. Deite-se aqui. Vamos assistir ao crepúsculo.
A noite chegava e as raízes iam se afundando no chão. Ao redor, percebi que pequenas flores passaram a florescer com a sombra que fazia.
- Veja, você tem companhia!
- E vou precisar de mais água. Desculpe-me. Disse a moça.
Com o tempo, os galhos foram tomando seu corpo e mantinham apenas seus olhos e boca descobertos. Eu ficava fitando-a durante todo o dia e contando-lhe minhas histórias de infância. Observávamos o voar dos pássaros, as idas e vindas dos barcos, o mudar das estações, até que um dia o tronco levou também seus olhos e boca.
Neste dia chorei tanto que floresceu um girassol em uma de suas raízes. Um girassol imenso e um lírio branco.
Deitei em volta da frondosa árvore e fiquei abraçada durante um dia e uma noite. Minha mão ainda ficava quente quando encostava no coração da moça. Eu sabia exatamente de onde tinha surgido o primeiro galho.
Ali passei anos nadando e levando a água. Surgiu uma imensidão de espécies floridas em seu entorno. A praia foi ficando colorida como um sonho e passou a existir cada vez mais pássaros, mais peixes, mais insetos. Havia cada vez mais vida em nossa volta.
Você valia a pena.

Não uma, mais milhares delas. Plumagens, sons e cores. Valia muitas vidas, muitas inspirações, muitos aprendizados. Você valia todo amor do mundo. No único mundo que importava. O nosso. 

Castro. 

Poema da Despedida #12

Mortalha 

Compelido de gratidão e miséria
Aqui jaz o mundo
A epígrafe dos dias
- Ao amor

A cova dos loucos
- Aqui jazem os sonhos

E a mortalha dos desesperados
- Aqui jaz a esperança

A estrada que escorre entranhas
E desgraças
Mau agouro dos malvados
Tentação dos invictos

Estende a mão o mal amado
E cai ao chão
Em seu castigo

Rastejante verme que deseja
No semiárido do destino
Invertebrado que fraqueja
A própria sorte, o sofrido.

Inesgotável fonte de querer
Não há terra, nem chuvisco

Não há pasto, nem semente

A tua cova, teu maldito. 

Castro

Os grandes sentimentos trazem junto com eles seu universo, esplendido ou miserável. 

14 janeiro 2014

Poesia da Despedida #11

O nó na garganta vai acompanhando o dia com palavras e palavras que transitam em diferentes velocidades conforme a música que ressoa e rebate a memória e os instantes que acreditei, que acreditei, que acreditei. As lindas frases que ouvi e que sobrevoam meus pensamentos insistentes, balões que erguem os sonhos e me tiram os pés do caminhar solitário que há aqui, uma vez que hoje, hoje, hoje esse nó se fez do tamanho do meu coração e me pediu para parar. Quando parei, com a mão ao peito, desacreditei.  Você não vem. E não há nada que eu possa fazer. 

Lóri e o Mar

Alivia minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a  resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como que eu como, o sono que eu durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.

Poema da Despedida #10

Meus olhos são duas fontes infinitas
De longos rios que levam a vida
Arrastando troncos, minando em bicas
Jorrando água de suas idas

Meus olhos são transbordo
Catalisadores de beleza
São um campo de tristeza
São testemunhas da tua espera.

Meus olhos são dois pássaros
Dois amantes embaraçados
O nascer de mais um dia

O sonhar e a agonia

13 janeiro 2014

Poema da Despedida #9

Ouço o lobo uivar inquietante na noite, farejando meus passos, seguindo-me silenciosamente e atravessando a porta que mantenho aberta à deriva, à espera. Reconheço esse som, esse cheiro, essa alma que conhece a cigana e que a reconheceu escorada no batente da porta olhando fixamente seus olhos castanhos com o coração na mão, sem medo, sem medo. E de passo em passo me tocou as pernas e fez surgir a luz dos espaços vazios e indivisíveis, sobressaltando os tons, as texturas, as imagens, a vida, a vida...


O que seria o amor senão esse perdão que procuro pela casa por ter desejado faze-la feliz. Não me perdoo pelo fracasso, pelo desespero e principalmente pelo medo constante que tenho das impermanências. Tento me perdoar por me sentir cortada pelo silencio triste da sua sala vazia e por achar-me razão de toda sua dor. Tento me perdoar por ter sentido o amor mais profundo quando sentei ao seu lado num bar, te estendi a mão e enxuguei o seu rosto enquanto ouvia seus medos, tento me perdoar por ser mulher, por ter entrado na sua vida sem ideia de que você não estava pronta. Eu também não estava, confesso. Mas quando é que estamos? Eu não estava pronta para ver tanta luz entrando, tanto desejo preenchendo o dia e a noite de imensos sonhos românticos e vontades de eternidade. Eu não estava pronta para querer ver minha casa cheia, meus compromissos a dois, minha porta aberta, uma nova vida, novas viagens, novos gostos culinários para curar-me de um paladar infantil. Um paladar infantil. Ninguém sabia cozinhar em casa, amor. Com muita paciência me alimentaram de mesmos elementos suaves e eu nunca reclamei. E mesmo não estando pronta para tanto enfrentamento, eu acordava todos os dias com vontade de mais e de fazer melhor, de ser melhor para mim, pra você e para todos que tocarem o meu mundo. E o que seria o amor senão essa sensação irremediável de querer ser melhor, de ver-se no outro e moldar-se junto, gerando frutos, mudando as estações. O que você me pediu, eu fiz. Deixei você sozinha para procurar sua felicidade. Eu parti quando você pediu. E não sai do lugar. 

Quando eu conseguir me perdoar, espero que me perdoe também. Perdoe-me por insistir. Eu realmente tenho uma fé indestrutível, mas neste caso era apenas amor. E amor deve ser vivido. 

Poema da Despedida #8

Gostaria de ter para onde ir. De segurar sua mão nesta semana importante, de entrevista de emprego. Se pudesse conceber como quero que o mundo se abra imensamente aos teus talentos, veria um enorme castelo de fé e doçura que se ergueu ao nosso mundo.
Gostaria de ter para onde ir. De te lembrar que estou com você para tudo que der nesta vida e que te vejo revelada no emaranhado ensimesmado na bagagem cheia que você leva, vivendo na sala vazia e rarefeita ao som de boa música e vinho. Sempre tão sozinha.
Gostaria de ter para onde ir. De chegar em casa e ver a bicicleta estacionada na garagem, o cheiro de comida e o barulho da rolha que se abre com a chegada soturna. Gostaria que você vivesse aqui para sempre. Gostaria de ter para onde ir.

Castro 



“Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada”. (Vinicius de Moraes)

Poema da Despedida #7

Não há nada que me tome mais do que a lua macia que aponta ao fim da rua, que subindo mambembe me abraça dizendo coisas de amor. Acaricia meu ouvido serena, chora segurando minha mão de medo e me reflete a força descomunal de quem enfrentaria tudo por um pacto sem sangue, porque além do pacto há os olhos de um cão fiel que não sabe enfrentar à vida (eu também não sei), mas que segue porque no segurar da minha mão em público vai me levando para nossa vida (que já não é mais só a minha vida) e é a nossa vida sonhada (então também aprendendo a sonhar juntas) e vamos sobrepondo não tijolo, mas grão por grão, porque somos honestas demais e assustadas demais para pisar com dois pés, mas quando menos vi já estava com água na cintura, a roupa de banho jogada na areia da praia e nadando nua, no paraíso perdido, você me segurou nos braços e me carregou como uma brincadeira de criança e eu dizendo:  – Venha, deixa eu te carregar também, parece um ventre materno de tão livre que é a sensação. E você sorria uma felicidade pujante, seus olhos transformaram-se em duas esmeraldas brilhantes, lapidadas incansavelmente de pedra bruta, primitivas como a terra. Rodamos no mar, no alto de nossos braços, as rotações da terra e a liberdade de quem ama jogado, lançado no mar. Além do pacto, há o amor sendo feito em redes sob a luz de mil estrelas na escuridão das velas e dos insetos. Há o calor úmido do teu ventre sempre disponível aos mil tentáculos que meu desejo quer. Estes mil tentáculos invisíveis que surgiram do nosso encontro e que mantiveram em pé a minha ordem e a minha paz, a minha felicidade efêmera e cotidiana, a minha espera diária da noite que cai e da tua sombra avançando na nossa casa, na nossa cama, aos olhar dos gatos, aos olhar de todos que não veem que há amor possível e imperfeito e honesto e avassalador e calmo e de preenchimento profundo de todos os medos que podem ser curado com todos os carinhos e todas as conversas e todos os rios de lágrimas e estradas de viagens que viriam se não tivesse a boca cessado a vida e sonoramente me enviado para um mundo assustador de saudade e sonhos. Sonhei todos os dias dos últimos cinco meses como se a vida fosse música. Como se a vida fosse como ela realmente é. Feliz, infeliz.

Eu sorrio, eventualmente. Porque você existe. Você existe na tua beleza paralisante, na tuas doces palavras de balões que voam livres e nunca sabem quando voltam. Você existe como cheiro de mata com chuva. Você existe no mar que me toca. E existirá pra sempre na pedra e nas esmeraldas que fizemos surgir. 

Castro.

Poema da Despedida #6

Acordar não tem sido fácil. Meus olhos abrem molhados e convivem com lágrimas silenciosas que não despencam, mas descem lentamente pelo rosto, como uma mão carinhosa que afaga a tristeza e alivia um pouco a dor. Não há tristeza que povoe a cabeça, porém saudade e fé.
Sou pessoa de fé.

Quando acordo, vejo as fotos de nuvens acima da minha cabeça e penso que aquele olhar, povoado de imensa beleza é a mão que abriu minha alma e repartiu em dois pedaços, duas pedras minúsculas que trazem em si todo Segredo, de todas as vidas, de um único amor. Um amor de todas as vidas. 

12 janeiro 2014

Poemas da Despedida #5

Escrevo para não morrer.

I

- Olhe para o mar, pense em tudo que você gostaria de agradecer a Iemanjá, toda esta beleza que a nossa mãe toca e respeitosamente faça seus pedidos para a sua vida.

Atrás de você, entoei a secreta música cigana em romani. A mesma música que chegou a seus ouvidos no alto de uma praça ao lado de casa, no pôr-do-sol. Neste momento só consegui desejar que seus pedidos transbordassem nas ondas, levando seus medos e culpas.  Para mim não lembrei de pedir nada, mas agradeci estar imersa em amor, aprendendo a nadar... um braço de cada vez, você dizia. Somente os pés devem sair das águas. 

Poemas da Despedida #4

Fechei a porta e desci as escadas secando o rosto que transbordava. Segurei firme a chave de casa. A chave que trouxe para te entregar. Antes de sair de casa, pela primeira vez lembrei-me de dar água a flor que vive na cozinha. Imediatamente, ela reergueu-se ao lado das bananas e eu fiquei tão feliz que agradeci por ela ter me esperado todo este tempo, ficando como pode no cantinho da mesa, me lembrando do dia que veio precedendo um jantar.

Nas ruas, contei os prédios, refiz mentalmente os caminhos que fazíamos em noites bonitas ou nas manhãs de domingo de café da manhã extenso, das idas ao parque, do ir de vir das bicicletas. De repente no meu dia não havia nada, planos ou lugar para onde ir.


Eu só fechei a porta porque não consegui ouvir seu pedido de que houvesse um fim. Não tinha nada a dizer porque não ousaria te convencer a seguir um caminho diferente daquele que você propunha, uma vez que lhe disse milhares de vezes que você deveria, com carinho, construir um caminho com a sua cara. A mim coube aceitar e conviver com os milhares de fantasmas que atordoam com doçura e desespero a minha casa, a minha cabeça e roubam os conteúdos da minha alma rindo-se de mim ao amanhecer. Porque o amanhecer sem cheiro de café pode ser mais tenebroso do que a morte. 

11 janeiro 2014

Poemas da Despedida #3

Vou contar-lhe um segredo
A porta aberta esperava teu beijo
Uma visita noturna que encaixa o corpo
O retorno de quem ama solto

Como a esposa de um caçador
Que nunca sabe de seu amor
E suspira incansável as suas noites.

Diversas vezes sonhei com você me completando
Deitando atrás de mim, por entre os panos
Dizendo palavras de amor, me desejando

Transbordando vida em todo canto. 

Poemas da Despedida #2

A manhã surgiu na janela,
Limpando o desenho que jaz no teto
Seu corpo entrelaçado ao travesseiro
Desenhava suas formas tão perfeitas

O silêncio cortante abriu as portas
A palavra objetiva pediu adeus
Cá em mim, trouxe toda poesia
E o amor que de tão grande
Sofre por ter nascido em corpo semelhante

Pudesse os céus me dar a forma sem preconceito
Pudesse os céus abrir os portões do sítio em paz
Pudesse os céus dar-te amor em meu sossego
Pudesse o céu guardar-me do vazio que aqui se faz.

A noite se apresentou sempre tão bela
Escureceu-me toda falta que me faz
Sei que em breve serás de outro
E de todo amor, serás capaz.






Poemas da Despedida #1

- Daqui nove dias vamos fazer cinco meses.
- Você conta os dias? Que bonito, disse a gringa.
- Gosto de saber que o tempo passa nos transformando. 

Ela corta os legumes com disciplina. O formato da mão em concha é sempre idêntico, um dedinho colado no outro. É tão lindo de ver  que me parece uma entrega milimétrica a fazedura do alimento. É admirável.  

Ela também acorda com um olhar doce e brilhante como duas luas misteriosas que procuram abrigo em meio a uma tempestade de silêncio, que de tão doces me dão uma esperança de vida em meio ao caos que posso acreditar em tudo que você disser pela manhã. 

E tem o seu levantar de corpo forte, corpo rígido, curvilíneo, perfeito e primitivo que se move como os lobos, com passos delicados e corrida de explosão, de ataque, de obstinação. Essa mistura bruta de querer e de morrer que transborda poesia de salvação no encalço de felicidade, de paz, de luta eterna.

Às vezes vejo a menina levada, de saia e blusa colorida, sentada no sofá surrado da casa bege, da bicicleta correndo, dos banhos de balde, dos pés na grama, da liberdade, do sorriso, do ensolarado.

Ela também é dolorosamente triste. Posso ver nuvens por entre a enorme cicatriz do seu peito, parece que abriga ali um santuário de deuses sagrados e lindos girassóis tranquilos que repousam no seu silêncio digno de monges. Sempre acreditei que teu peito abriga a doçura e a fragilidade do teu choro sentido, do teu olhar fiel e tão sincero. Tuas lágrimas semeiam  uma infinidade de espécies floridas e cores sem fim.

Ela também faz sexo como dança, segurando a mão e olhando no olho, entregue em ritmo e loucura, perdendo-se nos cheiros e nas névoas que possam surgir. Dali vi nascer a mulher, mas também a criança frágil, o desespero, o vazio, o amor, a solidão.Vi a forma que nos moldamos dia a dia nas nossas conversas que atravessavam a noite, vi sua cabeça cabisbaixa, vi seu choro, vi seu largo sorriso, vi seu silêncio. 

Te vi como você não se viu. E espero que se veja. Espero que se veja enorme. Espero que veja os frutos que deram certo, tão certo dentro de ti que se multiplicaram em mim e fincaram-se raízes absolutas de enormes árvores capazes de dar luz e sombra à vida.

09 janeiro 2014

A Grande Beleza

Anônimos da grande beleza
Empilhados verticalmente sob cimento e cal
Congelam seus úteros
E abraçam o caos.

Lideram legiões de escapamentos
Retorcidos em cruzamentos
Rastejando, sem mais tempo
De sobreviver.

Conglomerado de passos apertados
Camisas abotoadas e olhares baixos
Desolamento e descompasso

O que há de nós neste espaço
Senão a sombra de um cansaço
O pós-morte dos acordados

Uma vida e um fracasso.

MASNAVI