04 dezembro 2013

Por um mundo menos romântico



Antes de cada palavra, tive a certeza que seria um total fracasso de minha parte resenhar o inalcançável de mim mesma. Perceba que este esforço vão é miseravelmente ridículo. Não tenho competência para trazer-te nos quartos pouco iluminados de minha alma romântica.
Retornei a infância, para tentar identificar quando adoeci. Sentada nas escadas, da casa suburbana, no por-do-sol ao chegar da escola, punha-me deitada no chão com todos os papéis que já havia preenchido e abraçava-os enquanto chorava, ria e dormia. Lembro-me dos truques que usava para combinar poesia. Ingênua, escrevia uma linha, que necessariamente rimava com outra. Tão preocupada com a forma. Coisa de quem viveu pouco.
A primeira paixão surgiu e parei de escrever poesias para escrever cartas de amor. Cartas cuidadosamente escritas à mão e passadas a limpo em papel sulfite. Diversas vezes um botão de rosa seco as acompanhava. O momento sagrado era escolher o envelope discreto, disfarçado, selado minuciosamente para que não lhes rasgasse o conteúdo. Inicialmente, iam para o Rio de Janeiro, terra de minha infância. Depois, passaram a destinar-se à Brasília e por fim as cartas cessaram com a chegada de um computador em nossa casa.
Acontece que nunca abandonei por completo as cartas. Testei diversas caligrafias, fui procurada muitas vezes para escrever cartas de amor, de aniversário, de formatura. Diziam que eu era capaz de parir coisas que estavam embrionárias no coração alheio. Há muito não me procuram mais.
Sabe Deus quantas foram as cartas que escrevi e que nunca foram lidas.
Ontem tive insônia.  Pensei nestas cartas. Pensei no quanto já corri para demonstrar afeto. No quanto as demonstrações de afeto nos transformam em pessoas melhores, mais simples, mais escritoras de nossas próprias histórias. “Você sofre de romantismo e intensidade” me disse, certa vez, meu pai.
E ontem, com insônia, em meio a estas cartas vi a folha em branco me conduzindo a mão. A antítese do que de fato eu sou. Estamos cada vez mais calados, mais cegos e surdos nesta vida sem cartas. Nesta triste vida sem cartas. Com tantas imagens, hashtags, o resumo de tudo que somos em mini-frases, conectando-nos e nos desconectado da rede, dos afetos, da vida. Não haveria mesmo lugar para as cartas. Esta prova material de que há alguém, há um papel, há uma caneta e há dizeres não apagáveis. Há um tempo dedicado ao outro.
Quando penso nas cartas, me parecem tão sem sentido. Afinal, quantas frases passaram desapercebidas sendo corajosamente ditas e covardemente evitadas. Não há mais espaço para as cartas. E eu torço por um mundo menos romântico.

Não há mais espaço para escritores de cartas. 

MASNAVI