21 novembro 2013

Cento em Um poemas de amor - #16 - Do amor de presença

“Love is now” 

I

Meu amor é uma prece,
Um mantra,
A arte sublime de evocar a presença

Meu amor é o despertar
O abrir das cortinas em manhã de sol
É deixar-se invadir por calor

Meu amor é um rio de águas calmas
Desaguando entre as pedras
Semeando, umedecendo.

O por do sol, o crepúsculo, as nuvens esparsas.
O cordão da fé, a pílula mágica, o teto da casa.
O leite, a água, o ar.

Meu amor é eterno.
Memória. Gênese. Mutação.
Temerosa tempestade de arco-íris.


Meu amor é agora. 

MASNAVI

13 novembro 2013

Acerca da menina de asas

O homem não é nada em si mesmo. Não passa de uma probabilidade infinita. Mas ele é o responsável infinito dessa probabilidade.
Albert Camus

Acerca da menina de asas.


05:40 da manhã. Caminha entre pedras grandes e pedregulhos, machucando os pés em direção ao rio. Senta-se. Molha os dedos. Arrepia os braços. Lentamente vai entrando por inteira no buraco de água gelada a sua frente. Com o rio a abraçando até a ponta de seu nariz. Naufraga. Abandona-se para sempre na imensidão do seu intento de peixe. Suas asas vão abrindo até a outra ponta do rio, como se abraçasse todo peixe, nascituro de desejo consciente, até repousar lentamente à margem. Asas rasteiras e imóveis. No silêncio, adormecia. Via-se indo, indo. Não ia para lugar algum. Ali, imóvel, viu-se movendo, se arrastando, embalada no útero do rio acompanhada de uma calma histérica. 

(a continuar....)

MASNAVI

12 novembro 2013

Tridimensionalidade de coexistir

O que há na forma,
Antes da forma.
A linha sub-reptícia
que emerge do não-lugar.
O intento da perspectiva
O fracasso de gerar dimensões
Para além do sentido do olhar.
O rascunho tridimensional do afeto
A figura imagética do vir-a-ser
independente da mão geradora.

A arte do não-artista. 
O caos gerador de arte
nascituro da câmera invisível 
que morre nos olhos. 

MASNAVI 

Fonte: Portfólio Natalia Nunes 

05 novembro 2013

Lobo da Estepe

"Teatro Mágico
Entrada só para os raros
Só para os raros" 
O Lobo da Estepe - H.Hesse. 

Passagem do dia 

Ontem escutei o uivo dolorido de um lobo. 
Ele clamava por cuidados. 
Tinha uma raiz nascendo no peito. 
Tentava arrancar. 
Como haveria de brotar vida em seu coração?

Hoje, vi uma águia. Ela voou baixo no estacionamento do Grajaú. 
Como veio parar uma águia no Grajaú? 
O biólogo que estava comigo espantou-se. 
Mas a águia ficou nos encarando. 
E o biólogo disse que ela estava ensinando um pássaro a voar. 
- Eles não nascem sabendo? Lhe perguntei. 
- Não. Eles aprendem. Respondeu o biólogo. 
Então o pássaro só se reconhece pássaro através do outro? 
Toda sua potencialidade morre seca, na solidão. 



Ouve o uivo-lobo
Da dor d’alma
Que nega o fogo.

Cala no teu silêncio
O corpo frio
Que nega a fala
E chora o rio.

II


Vais ver passar as estações
Vias ver passar as multidões
Vias ver passar a própria vida. 
No muro triste
que não se rompe. 
Que só desiste. 

MASNAVI 






04 novembro 2013

Cento e Um poemas de Amor #15 - Castro e Alves

"Não existe amor que não seja um exercício de despersonalização sobre um corpo sem órgãos a ser formado; e é no ponto mais elevado desta despersonalização que alguém pode ser nomeado, recebe seu nome ou seu prenome, adquire a discernibilidade mais intensa na impressão instantânea dos múltiplos que lhe pertencem e aos quais ele pertence." Deleuze 
               
I

Eu sou árvore. Dizia.
Seca e sem frutos.
Sou capitão do barco à deriva
Navego trazendo tormentas
Trago na boca a mortalha sem voz
Dos afinadores de silêncio.
Venho isenta de mim.
Despida de todo devir.
Não desejo, não sonho.
Sou puro servir.
Não sirvo a mim.

II

Querida,
Prepare teu ventre
Em meio a absurdos
Anunciada visita
Carregará a primeira palavra do teu corpo

III

Amor


CASTRO