30 outubro 2013

Tu e Eu

Feliz o momento em que nos sentarmos no palácio,
dois corpos, dois semblantes, uma única alma
- tu e eu.

E ao adentrarmos o jardim, as cores da alameda
e a voz dos pássaros nos farão imortais
- tu e eu.

As estrelas do céu virão contemplar-nos
e nós lhe mostraremos a própria lua
-  tu e eu.

Tu  e eu, não mais separados, fundidos em êxtase,
felizes a salvo da fala vulgar
- tu e eu.

As aves celestes de rara plumagem
por inveja perderão o encanto
no lugar em que estaremos a rir
- tu e eu.

Eis a maior das maravilhas: que tu e eu,
sentados aqui neste recanto, estejamos agora
um no Iraque, outro em Khorassan

- tu e eu.


29 outubro 2013

Cento em Um poemas de Amor #14

Prologo

Corre ao largo, que tropeça torto e torpe
Ao lago, do que chama ao nome
Quando ao menos pode
Chamar por fome
O que tudo come

E nada some
Quando falo
Amor.

I

Aqui, em frente a ti, eu sucumbo.
Não há um corpo de dois olhos que te veem.
Não há dois braços, estáticos que não movem.
Não há duas pernas, esquecidas, que se encostam.
Eu sou apenas fome.

Sou o invisível inalcançável pelos dedos,
Resisto a tudo, inclusive atravesso a morte
Desde o fruto, frágil semente, até a imensidão que floresce
Sou tudo, estou em tudo e sou toda sorte.

Quando raiz, que brota fundo em terra fresca
Corre solta, livre, livre, livre,
Eu desaguo escaldando a nascente,
Dando vida a tudo que desejo porque sou fonte.

Faço mares, faço prece, faço pássaros
Faço vida que voa além dos membros.
Quando livre sou frágil silhueta
Que dança no útero da própria morte

Sou a calma que te causará tormentas
A brisa que lavará sua alma
A navalha que cortará teus medos
O destino que desejará a eternidade.

Resido entre os vãos de tudo que é matéria

Só existo se me chama pelo nome. 

MASNAVI

25 outubro 2013

Prólogo - Cento em Um poemas de amor #13

Prólogo.

Sou Romani, ou simplesmente filha das estrelas. Deixo esta descrição na placa de dizeres que fixaram em cima da minha cabeça e é bom que leia. Em letras menores, nesta mesma placa, deve ter algum aviso de “inflamável”. E é bom que fique atenta as palavras. Não foram afixadas ai à deriva. E se adentrar, nada será como antes. Renasceremos para uma nova velha vida. Uma vida que não será uma vida, mas uma vidinha, assim, bem ordinária. Mas não me confunda. Não sou soma de forças, não sou amor fraterno, não sou amizade desinteressada. Sou demência, querida. Sou viração. Sou um corpo quente que só cala junto ao teu. Um elixir de vida e belezas profundas. Quero consumir e ser consumida até a última gota da tua saliva e quando não houver mais nada, brotará da pedra. Porque também sou campo fértil para qualquer negócio. Despudoradamente cafona sinfonia que samba onde há o ritmo. Sou um pulo. Um céu. Um mar que abre as ondas para te ver navegar tranquila. Tormentas de calma profunda. Quando a calma não é a minha. Não sou de calma. Mas sou de paz. Só não me confunda. Não mistura jazz com bossa, porque sou jazz. Você faz o solo, eu repito o tema, improviso. Respiro progressão harmônica. Danço. E se não sabe dançar, ouve. Olho no olho, mão na mão, corpo no corpo.
Não confunda.
Eu estou de frente, não de lado.

E sou mulher.


21 outubro 2013

La Voluntad

Os ensinamentos de Don Juan
La Voluntad

Existe
a sete medidas do umbigo
No centro dos oito pontos
Cinzas de fogo do sentir 

O mundo é uma sensação
A realidade, uma interpretação
Não fazer é vigília
Dominar os pensamentos é batalha

Guerreiros
Partimos

E não voltamos. 

No intento. 

MASNAVI 


14 outubro 2013

O Corpo

Como dois lobos que se conduzem
Por aquele momento no crepúsculo
Tocam a fresta que não é claro, nem escuro.
Caminham pelo mundo que não é a sua ordem.

Farejam os cheiros do Velho, Novo Mundo
E reconhecem o corpo-bicho rastejante

Eternamente cúmplices da condição
não mais humana;
enxergam-se a própria imagem e semelhança

Atento aos sinais,
Inúmeros do caminho
Reconhecem em seus corpos,
Um no outro
A origem e o destino.

CASTRO


(Só existe correr os caminhos que tenham coração, qualquer caminho que tenha coração. Ali viajo, e o único desafio que vale é atravessá-lo em toda a sua extensão. E por ali viajo, olhando, olhando, arquejante). 

11 outubro 2013

Cento e Um Poemas de Amor #12

Traga-me o vinho!
Sucumbi aos excessos muito cedo, senhorita. Não por mau agouro, quiçá nascença, mas porque a alma não deu conta da pequenez.
E a arte, que brotou no coração muito cedo, de vida própria e amorfa, se apropria do outro para existir e renascer. E como se quisesse liberdade. Nesta liberdade desaforada, escolhe os bêbados. Bêbados de coração livre. Bacantes silhuetas que lhe tomam as mãos e dançam, rebolantes.
Certo dia me perguntou o que vi em ti.
Cego que sou de um olho, justamente o olho que mede a forma elíptica das probabilidades do morrer, me restou apenas um olho para ver.  E o órgão tão jocoso, emana códigos de realidade inventada e faz padecer meu coração. Coração que além de cego, nasceu manco.

O que vi em ti. Vejo um pedido, de um olhar que brilhasse. E que esse brilho sustentasse o que de real existe, toda glória (ou horror) deste pedido, ou que ao menos evocasse sua condição humana, que é sublime.  
E que eu acolho. 

MASNAVI 

Cento e um poemas de amor #11

Este não é mais um poema de amor.
Não há som
 A, 
    A, MO, 
       AMO, AMO, AMOR.
Como chamado.
Chamando sem vocalizar o A, A, MO, AMO.
Porque no silêncio,

No silêncio tudo é possibilidade e impermanência. 

MASNAVI

09 outubro 2013

Sobre lobos

Talvez por viver o próprio delírio
Me aproprie às avessas da realidade
Sou um pássaro que sobrevoa o rio
E carrega coração de peixe, na cavidade.

Vejo do alto,
As árvores
Vejo no asfalto,
Guerreiros passantes
(Lobos, cachorros, guarás).

O que me traz aqui,
É faro, é rastro de sensibilidade;
Se te encontro aqui
Exatamente neste ponto
É amor.

A única realidade. 

MASNAVI 

07 outubro 2013

A águia

Como a águia que nasce para o voo
Reconheceu nas asas ancestrais,
O caminho.
Olhou para si e viu-se ave,
Precária e temerosa
Presa em curtas plumas,
E tortas pernas.

Em seu sangue, a natureza
Em sua mente, a condição   

Sozinha, tentou o voo
Sozinha, caiu no chão.

II

Nasceu do ovo, a pobre ave;
Pequeno ovo, um embrião ;
Escondeu-se meses em fina casca
Levou mais tempo, do que os irmãos.

Pediu comida, pediu alento;
Hora atendida, horas em vão
Viu-se sozinha, pequena ave
Achou que era vida, a solidão.

Procurou os sonhos, achou a arte
No misticismo, a ilusão.
Viu-se sozinha, pequena ave.
Achou que era vida, a solidão.

Cresceu no mato, com o cachorro
Achou amor em precisão.
Não quis saudade, nem desencanto
Então fabricou asas de pé no chão.

Subiu os morros, correu na mata
Enlouqueceu na viração.

III

Do que és feita, pequena ave?
Se não de amor e de perdão.
Se vais voar, além do céu.
Mesmo pequena, me dê à mão.


 MASNAVI 

02 outubro 2013

Do amor

Sentados,
Nas ruínas de um morro qualquer
Divagávamos de como seriam nossas vidas
Entre o quebrar de uma e outra onda
Silenciávamos segredos de mãos dadas
Apertado feixe de cumplicidade eterna
Teu olhar me fazia morada (infância)
E teu abraço, sono eterno de paz.
Juntos. Em uníssono,
Somos cada átomo miserável
Das estrelas.

CASTRO