30 setembro 2013

Retorno de Camus

(...) voltava cedo para casa e deitava-se. nesta corrida de um sol a outro sol, os dias de mersault ordenavam-se, segundo um ritmo cuja lentidão e estranheza começavam a ser-lhes tão necessárias quanto, antigamente, seu escritório, seu restaurante e seu sono. nos dois casos, ele não estava plenamente consciente disso. mas agora, ao menos, nos seus momentos de lucidez, sentia que o tempo lhe pertencia, e, nesse curto instante em que o mar passa de vermelho a verde, cada segundo constituía para ele algo de eterno. assim como não concebia uma felicidade sobre-humana, também não conseguia conceber uma eternidade além da curva dos dias. a felicidade era humana e a eternidade quotidiana. tudo resumia-se em saber humilhar-se, harmonizar o coração ao ritmo dos dias, em vez de obrigá-los a seguir a curva de nossa esperança. da mesma forma que é necessário, em arte, saber parar, pois chega sempre um momento em que uma escultura não deve ser mais tocada, e que, para isso, a vontade da inteligência serve melhor ao artista do que os mais amplos recursos da clarividência, assim também é necessário um mínimo de ininteligência para se conseguir uma existência feliz. e quem não a tiver, tem de conquistá-la. - a morte feliz. CAMUS

foto//helen warner