30 setembro 2013

Retorno de Camus

(...) voltava cedo para casa e deitava-se. nesta corrida de um sol a outro sol, os dias de mersault ordenavam-se, segundo um ritmo cuja lentidão e estranheza começavam a ser-lhes tão necessárias quanto, antigamente, seu escritório, seu restaurante e seu sono. nos dois casos, ele não estava plenamente consciente disso. mas agora, ao menos, nos seus momentos de lucidez, sentia que o tempo lhe pertencia, e, nesse curto instante em que o mar passa de vermelho a verde, cada segundo constituía para ele algo de eterno. assim como não concebia uma felicidade sobre-humana, também não conseguia conceber uma eternidade além da curva dos dias. a felicidade era humana e a eternidade quotidiana. tudo resumia-se em saber humilhar-se, harmonizar o coração ao ritmo dos dias, em vez de obrigá-los a seguir a curva de nossa esperança. da mesma forma que é necessário, em arte, saber parar, pois chega sempre um momento em que uma escultura não deve ser mais tocada, e que, para isso, a vontade da inteligência serve melhor ao artista do que os mais amplos recursos da clarividência, assim também é necessário um mínimo de ininteligência para se conseguir uma existência feliz. e quem não a tiver, tem de conquistá-la. - a morte feliz. CAMUS

foto//helen warner


27 setembro 2013

Cartas à Castro Alves


22:47
Inicio esta pedindo-lhe desculpas, pois não sou dado a cortejo cego a desconhecidas, porém não tive outra saída, senão atender o pedido do meu querer. Considere um cortejo cheio de lisura, pouco planejado, pouco praticado, meio sem saber o jeito de se iniciar uma conversa, então plantado de jocosas frases, para que eu ganhe ao menos um sorriso. Soube que gosta de cinema. Prazer.

23:54
O prazer é meu. Estava justamente cá com meus delírios, imaginando que seria aprazível uma companhia entendida de arte para desdobrarmos os entendimentos em horas de conversas. Sou uma mocinha recém-independente, desfrutando das ruas desta capital, um recomeço para mim. E cá me surpreendo com a sintonia das coisas do cotidiano, eu querendo um amigo e surge sua carta na minha janela, jogada por nosso nobre colega.

23:57
Caro colega que conheci há pouco. Soube que admira o cinema francês.

00:05
Admiro o cinema e a literatura.

00:09
Cara mocinha, que oficio lhe trouxa a capital?

00:10
As artes.

00:11
A minha cara, a arte. O simulacro da nossa mediocridade.

00:13
Acho que precisamos das telas para nos ver. Agradeço as cartas, mas preciso de descanso.

00:33
Cá lhe trouxe uns versos para degustar enquanto dorme.

22:06
Caro escritor, agradeço a poesia. Estive pensando que os tempos modernos podem ser assustadores. Estão dizendo por ai que já inventaram um aparelho que substituirá as cartas. Um aparelho no qual escutaremos a voz da outra pessoa. E me diga, caro escritor, quais cuidados tomaremos ao desaguar as palavras desatentas, sem o esmero da redação? Sem o tato dos dedos na caneta? Sem as lágrimas que venham a cair e borrar o papel. Prova cabal e incontestável do nosso sentir?

22:48
As inquietações me causam insônia. Sou um homem que deveras sente. Tenha paciência com a modernidade. Construiremos torres enormes de ilusão e pó, para evitarmos o transbordo de si. Querida, você ainda é muito jovem, mas somos seres angustiados. E talvez seja isso que nos mova.

23:30
Caro escritor, preciso um tempo para respirar. Fôlego.

16:05
Querida mocinha, fiquei preocupado com sua saúde. Espero que esteja bem.

18:23
Começarei assim atravessando as cordialidades. Estou cansada e sem tempo. Gostei muito de ter recebido suas palavras. Desculpe meu silêncio. É de beleza que sorri.

19:37
Gosto de cartas. Gosto do cheiro do papel que tocou mãos escreventes. Gosto de imaginar que por alguns instantes a caneta pairou no ar e suspendeu os dizeres. Fico imaginando para onde foram os dizeres suspensos. Gostaria de tê-los todos para mim.

21:18
Gosto que perceba as sutilezas do cotidiano. Devo confessar que não espero suas cartas de resposta e me angustia que em algum momento eu venha espera-las. Haverá uma exibição para moças e rapazes este domingo no centro. Vou com amigas. Gostaria de lhe encontrar, se possível. Já pensou quando a gente se cruzar, minhas faces ficarão rosadas e talvez sejamos dois desconhecidos no espaço.

22:38
Não ficará envergonhada. Já nos conhecemos um pouco. Pouco me importa as faces. Quero que passes na praça, no endereço abaixo, para escutar uma canção. Avisei o colega da bodega que uma mocinha passará em seu estabelecimento para agraciar os ouvidos na vitrola.

23:19
Querido escritor, passei na pracinha e ouvi a música que escolheu. Meus olhos marearam como marolas de nostalgia.

11:17
Esta conversa esta deveras arriscada. Posso vir a esperar as cartas cada vez com mais ansiedade. Liberdade é querer sem saber se haverá resposta.

13:40
Caro escritor, chegou o dia em que possivelmente possamos conversar com cartas em branco, através dos olhos e boca. Haverá uma exibição extra para moças e rapazes no centro e você é meu convidado.

FACE A FACE COM O ESCRITOR

- Querido, preciso alerta-lo de tantas coisas.

- Gostaria de mostrar-lhe às faces a estrofe escrita a sangue. Destaca-la na navalha que sucumbe ao desejo e quiçá ao amor. Quer que eu escute os alertas? Fale em voz alta. Mais alto. Mais alto. Talvez se escutando, você escute-se. E passe a ouvir o chamado da vida. Aqui, aqui e aqui. Onde o barulho de dentro do peito ressoa nos olhos e nos ouvidos. Não tão somente em si, mas ecoando no outro, em si. E quem sabe na praia, sentados, atreva-se a nadar acompanhada de sua nudez, que também será amor. E verás que a contemplação na companhia do amor, desnuda do vir da morte das coisas, do estar presente fincado no chão como árvore, cabelos dançando aos ventos, ventos soprando ao mar e haverá a plenitude temporária de quem pertence e por pertencer se reconhece. Por se reconhecer, existe. E só existe porque é. Aqui, aqui e aqui.

-...


- Vou embora quando me pedir. (Desejando que não peça). 

MASNAVI

24 setembro 2013

Eu queria ser Alves

Chicoteia o vento
Em meus delicados galhos
De árvore

Seminua me curvo
Diante das bênçãos
Do chacoalhar diário
Da planta
Imóvel,
Que dança
Seus mistérios

No tempo

Masnavi