04 maio 2012

Do amor


As janelas sempre estiveram abertas.
Na casa era possível ver os móveis empoeirados, uma cortina suja, alguns sinais de abandono e solidão. Não era qualquer solidão. Era um vazio de saudade e esquecimento, de amor e reconstrução.
Não eram quaisquer janelas.
Estiveram entreabertas entre a luz e a melancolia, como música, sinfonia, própria da poesia pura intensidade e compaixão.
Adentrou e pensou rapidamente transformar aquele espaço em contemplação. Esqueceu o próprio tempo, que arrasta em movimento, todo pó em todo vão. Esqueceu que a beleza da janela aberta havia sido acorrentada em marteladas de ilusão. Não viu a casa e suas correntes; suplicantes, exigentes, de afeto e de perdão.
Semeou a terra no jardim e não quis esperar enfim, as lindas flores que crescerão. As estações em seu próprio rompimento trazem flores, traz o vento, cada coisa em seu tempo no compasso de libertação.
Não há força, nem promessa, que coubesse nessa pressa que agora jaz aqui.
A casa abriu-se, o jardim floriu, os móveis reluziram e seu brilho se fez novamente.
Como toda promessa, adentrou e saiu no mesmo passo. Trocou amor por amor. Amor?
Não há palavras que substituam a vida e suas demonstrações de amor. Do seu amor. Do seu não-amor.
A pressa substitui qualquer amor. 

MASNAVI

Entre nós, o silêncio


Entre um e um, há o silêncio. E o silêncio é cortante fato da tua ausência. Não há afeto que se desfaz e faz como linha continua sem inicio ou fim. Se há. Mistura-se neste ir e vir e neste movimento rompe sua autenticidade. Deixa de ser linha. Fazem-se remendos, dos remendos do sentir. É entregue a si e não entrega nada além de vontades próprias e cegueira crua de quem borda uma bela mentira para dar de vestir. Assim, rapidamente transforma toda sua forma em coisa amorfa, inexplicável, sem fim. E o que sobra? Sobram restos de novelo que nascem e morrem como remendos de um tecido, assim. Com aroma de lírios que se desfaz facilmente no mundo, enfim.
Entrega-se aqui e agora ali. É um véu que jamais caberá em si.
É coisa rompida que não transforma além da linha que coube pra si. Nunca, de fato, existiu coisa assim.

MASNAVI 

03 maio 2012

Cento e Um Poemas de Amor #8


Meu amor,
Esta canção é para venerar seus lindos olhos
Para dançar com toda memória
Para embarcar ao longe da vida
Para fundir-se em um só.

Quero unir-me ao teu corpo nu
Acreditando que o mundo neste momento pára
E consagra nosso amor.

Bem aventurado os homens de boa fé
Que sustentam as nuvens do amor
E voam, cada vez mais longe de si
Para dentro da roda do mundo
Que gira estações no tempo da luz

Saudade. E nada mais. 

MASNAVI